O interior é discreto mas requintado, com um sistema de luzes controlado por computador e painéis móveis que permitem modificar o espaço consoante as necessidades, à semelhança dos biombos na arquitetura japonesa.
Luísa Vinhais, engenheira química de formação, é a responsável pela loja, que funciona à porta fechada, uma vez que se trata, acima de tudo, de «um local de estudo e de trabalho». A Jorge Welsh orgulha-se de ter três investigadores em permanência e de já ter editado 30 catálogos.
Como passou da química para as antiguidades?
Trabalhei seis anos numa fábrica, e não era uma coisa que me preenchesse. Como ia muito aos leilões e às feiras, conheci por acaso o Jorge Welsh, que estava em Inglaterra e andava à procura de uma pessoa para trabalhar com ele em Portugal. Foi um risco, mas correu muito bem e somos sócios desde 1991.
Onde estavam antes de abrirem esta galeria?
Inicialmente tínhamos um pequeno escritório, uma coisa mínima. Em 1998 fomos para a Rua de S. Bento, onde tivemos uma loja durante vários anos, e em 2008 mudámo-nos para aqui.
A vossa especialidade é a porcelana de exportação. Por que exerce este material tanto fascínio?
Nós chegámos à Índia em 1498. Nessa viagem vieram as primeiras peças de porcelana e quando chegamos à China, em 1513, vêm mais. Têm figuras, cenas e formas chinesas e por isso são exóticas e fascinantes para o Ocidente. Ao mesmo tempo, o fascínio nasce também de não termos capacidade para as fazer. Só no início do século XVIII a Europa descobre o segredo da porcelana.
Que segredo era esse?
O caulino, a matéria-prima. E depois tem de se atingir uma temperatura muito elevada.
A porcelana era também um sinal de distinção social.
Completamente. De resto, é um material que influencia os costumes de higiene e da mesa da sociedade ocidental. A faiança não tem as qualidades de dureza, resistência, brilho e limpidez que tem a porcelana. Uma peça de porcelana elaborada há 400 anos mantém o brilho e a resistência.
Como se prepara a participação numa feira como a de Maastricht?
A preparação começa com a escolha das peças que queremos levar. Depois contacto com o gabinete de arquitetura que nos faz o stand, para elaboração do layout onde se consiga expor as peças que escolhemos. O mundo da arte e das antiguidades movimenta muita gente: os investigadores, os restauradores, os transportadores, a equipa que vai para embrulhar e desembrulhar as peças, a pessoa que ajuda na parte da iluminação, as pessoas que fazem as vendas.
E tudo isso custa a módica quantia de…?
São algumas dezenas de milhares de euros.
E compensa?
Compensa largamente. A nível financeiro e não só.
A participação é um bocadinho uma montra para colecionadores e instituições?
Com certeza. As feiras têm essa vantagem: os interessados no mundo da arte estão lá quase todos naqueles nove dias.
Quantas peças levam?
Centenas.
E também compram na feira?
Claro que sim.
Qual foi a peça mais extraordinária que já lhe passou pelas mãos?
Este pagode é uma peça fantástica. Com 90 cm de altura e oito andares, contam-se pelos dedos da mão os que há no mundo. Havia um pagode na China feito de tijolos de porcelana que infelizmente foi destruído por uma revolta em 1815. Tinha 90 metros de altura e nichos onde eram colocadas velas, estava iluminado a noite inteira.
As peças que levaram podem variar entre que valores?
Desde centenas de euros até centenas de milhares.
Muitas ou poucas centenas de milhares?
Normalmente não dizemos o valor das peças, até por uma questão de descrição em relação ao comprador. Mas às vezes podem ir além das centenas de milhares.
Ao milhão, portanto.
Pode passar.
Quem são os vossos clientes?
São sempre pessoas apaixonadas pela arte. Compram sobretudo para viverem rodeadas de obras que as fazem sentir bem, mas evidentemente uma pessoa que faça esse investimento quer que a peça mantenha o seu valor.
São mais portugueses, estrangeiros?
Já tivemos mais clientes portugueses do que temos hoje. Na TEFAF do ano passado vendemos para Espanha, França, Alemanha, Itália, Suíça, Noruega, Médio Oriente, Extremo Oriente, Estados Unidos, México. Há clientes que vêm várias vezes por causa de uma peça e dizem: ‘Vou agora à TEFAF, não se importa de a mandar para eu a ver outra vez?’. O antiquário tem de ter imensa paciência, adorar o que faz e as vendas vão acontecendo.
Acontece o turista estrangeiro tocar à porta, entrar e comprar uma peça na hora?
Sim, acontece. Há pessoas que já nos conhecem e vêm cá por nossa causa e outras que desconheciam mas entram e ficam clientes. Na semana passada tivemos a visita de um instituto de artes americano e o diretor disse-me: ‘Tenho de falar com a conservadora do Instituto porque vamos abrir uma sala de arte asiática e temos aqui peças que podem ser muito interessantes’.
Como se processa a venda a um grande museu?
Vou dar um exemplo. No ano passado precisávamos de uma imagem para fazer a mensagem de Natal e usámos uma peça que estava guardada para uma exposição. Houve um museu a quem desejámos as Boas Festas que se mostrou interessado porque está a desenvolver a área do Cristianismo e neste momento a peça está reservada.
E depois leva-lhes a peça?
Normalmente vem alguém do museu ver a peça antes. Já vendemos para o Metropolitan de Nova Iorque. Sabe como é que funciona? Eles pedem para a peça ir para os EUA e vão à procura de alguém que a ofereça. A peça fica lá um mês ou dois, até que haja uma reunião com os doadores. E depois vem a confirmação ou não. Caso não haja interesse de nenhum dos doadores, a peça volta para trás.