A estes não colocava problemas que, até ao Obamacare, 40 milhões de americanos não tivessem qualquer seguro de saúde. Ajudar os mais pobres através do Estado é, para o ‘Tea Party’, uma doença europeia, que prejudica a competitividade americana. Por isso ridicularizam o chamado modelo social europeu, que não querem nos EUA.
De facto, as primeiras medidas de um Estado Providência surgiram na Europa. Mais precisamente, na Alemanha, nos anos 80 do séc. XIX, pela mão de um conservador anti-socialista, Bismarck – para tirar terreno aos socialistas…
Na Grã-Bretanha, nos anos que antecederam a I Guerra Mundial foram legislados apoios às classes pobres (pensões, seguros de doença, etc.); e houve algumas subidas nos impostos sobre os ricos. Mas o grande avanço do Estado Providência concretizou-se com o governo trabalhista a seguir ao fim da II Guerra Mundial. Para o financiar, o imposto de rendimento chegava em 1973, no escalão máximo, à taxa marginal de 75%. Taxa que, com M. Thatcher, baixou depois para 40%.
Mas os EUA não ficaram de fora desta vaga humanizadora do capitalismo, que entretanto se espalhou na Europa Ocidental (em Portugal, quase só depois de 1974). Em parte como resposta à Grande Depressão dos anos 30 do séc. XX, os EUA prosseguiram uma política de redução das desigualdades entre 1930 e 1970.
Como salientou Thomas Piketty num recente artigo no Le Monde, entre 1930 e 1980 os rendimentos mais altos pagavam nos EUA uma taxa marginal, no escalão máximo, de 82% em média, chegando aos 90% em certos anos. O imposto sucessório era de 70 a 80% sobre as grandes fortunas (contra, por exemplo, 30 a 40% na França e na Alemanha na mesma altura). O que não travou o grande crescimento económico americano depois da II Guerra Mundial.
Em matéria de apoios sociais os EUA sempre foram pouco generosos. Em todo o caso, nos anos 30 surgiu o salário mínimo federal, o seguro dos depósitos bancários, etc. Em 1965 apareceu um limitado seguro de saúde para a terceira idade (Medicare). Mais tarde, Obama teve de vencer a violenta oposição da direita republicana para alargar os seguros para os pobres (Medicaid), que não abrangiam muita gente. Agora, Partido Republicano promete eliminar o Obamacare logo que possa.
Foi na área fiscal que mais se sentiu a recente viragem nos EUA, no sentido de agravar, em vez de diminuir, as desigualdades. Por isso a taxa marginal máxima sobre o rendimento é hoje metade do que era antes da reforma fiscal de 1986.
Ora os rendimentos da classe média americana estão quase estagnados há décadas, enquanto uma pequena minoria de privilegiados vê a sua riqueza subir em flecha. Apesar disso, os radicais do Partido Republicano rejeitam qualquer aumento de impostos para os ricos, apesar de alguns destes o desejarem. Estes sabem que tais disparidades, próprias da era pré-industrial, são uma bomba-relógio política, que poderá rebentar a qualquer altura. Como sobreviverá a democracia?