Trata-se de percepções das pessoas sobre si próprias. Até pode ser que este ‘novo proletariado’ tenha hoje mais rendimentos do que tinha há 15 ou 20 anos. O relevante é que as pessoas que agora dizem pertencer à classe operária se sentem excluídas dos benefícios do crescimento económico.
Tal sentimento é particularmente chocante nos EUA porque contraria o ‘sonho americano’: qualquer um, com trabalho e um pouco de sorte, poderia chegar a rico. Ora na sociedade americana a mobilidade social é hoje inferior à que predomina na Europa. A própria mobilidade territorial foi travada na América pela crise do crédito hipotecário à habitação (o tristemente célebre subprime), que prendeu muita gente à casa onde é obrigada a viver, porque a comprou com um empréstimo bancário mas ela se desvalorizou.
Depois de décadas em que a maioria das pessoas, nos EUA e na Europa, tinha como praticamente assegurada uma melhoria gradual do seu nível de vida, ano após ano, a situação é hoje inversa: enraíza-se a ideia de que as novas gerações viverão pior do que as anteriores. Predomina o pessimismo sobre o futuro económico, algo que, nesta escala e descontando cataclismos (como as guerras mundiais ou a grande depressão dos anos 30 do séc. XX), não se via nos países desenvolvidos desde a revolução industrial.
Isto acontece depois de o capitalismo industrial, que se desenvolveu desde o séc. XIX até por volta dos anos 70 do séc. XX, ter tirado a maioria dos trabalhadores do proletariado, transferindo-a para a classe média. Sobretudo nos EUA, e mais lentamente na Europa e no Japão, os ‘ex-proletários’ passaram a possuir casa própria, electrodomésticos, carro, etc.
Mas a melhoria mais ou menos assegurada passou recentemente a ser substituída por uma sensação porventura não tanto de retrocesso como de estagnação. Mais precisamente: de retrocesso em termos relativos, face à subida em flecha da riqueza e dos rendimentos de um pequeno grupo de privilegiados.
Este é o terreno psicológico propício ao florescimento dos populismos. Muitas pessoas sentem-se injustiçadas por um progresso que já não as beneficia e por isso vão atrás de demagogos, como Donald Trump. Os demagogos apontam “soluções” que nada resolveriam: basicamente o protecionismo, a penalização de empresas que se deslocalizam para o estrangeiro, barreiras à entrada de imigrantes, etc. Isolamento, numa palavra.
Mesmo políticos menos demagógicos, como Hillary Clinton, cedem a tentações protecionistas para obterem votos. Hillary está hoje contra a chamada Parceria Trans-Pacífico, defendida por Obama, e que deverá preceder (se concretizada, o que não é nada certo) a Parceria Transatlântica dos EUA com a União Europeia, cujo futuro também é altamente duvidoso.
Mas será inevitável a tendência para a concentração da riqueza em cada vez menos gente? Claro que não. Muito dependerá das políticas dos governos. Na Europa, importa preservar o Estado Social discriminando positivamente os mais pobres. Nos EUA a prioridade deveria ser uma política fiscal mais justa.