Pereira Gomes resistiu oito dias à polémica, mas viu-se obrigado a renunciar à chefia das secretas, um cargo para o qual tinha sido indigitado pelo primeiro-ministro no dia 9 de maio. A pressão veio sobretudo dos socialistas que acusaram o embaixador de ter tido um comportamento pouco digno à frente da missão que chefiou durante a crise timorense.
«Posso dizer-lhe que quando foi anunciado [o nome de Pereira Gomes] fiquei surpreendida e chocada. Entendi que tinha de falar depois de ter feito chegar alguns alertas a quem de direito», conta ao SOL Ana Gomes. A eurodeputada socialista declarou, oito dias antes da renúncia, ao Diário de Notícias que o embaixador «não inspira confiança e autoridade junto dos seus subordinados nos serviços de informação».
À ex-embaixadora de Portugal em Jacarta juntaram-se outros socialistas. João Soares afirmou que Pereira Gomes «não teve, infelizmente, um comportamento exemplar durante a crise timorense». O deputado socialista, que pertenceu ao Conselho de Fiscalização do SIRP, defendeu mesmo que o embaixador «não tem condições» para exercer o cargo». Manuel Alegre comunicou a António Costa a sua «discordância total» com o nome escolhido para ser o próximo secretário-geral do Sistema de Informações da República Portuguesa (SIRP).
O presidente do PS, Carlos César, não foi tão longe, mas, em declarações ao i, abriu a porta à possibilidade de o processo ter de ser «reiniciado» se Pereira Gomes não fosse capaz de esclarecer, no parlamento, as dúvidas que surgiram sobre o seu papel na crise timorense. «Veremos», disse o líder parlamentar do PS. Não foi preciso esperar pela audição no parlamento, que é obrigatória a seguir à indigitação, porque, nesse dia, o diplomata renunciou ao cargo e tornou pública a carta em que manifesta a sua «indisponibilidade».
O telefonema que impressionou Ana Gomes
O embaixador ocupa dez dos onze parágrafos da carta a explicar o processo de retirada dos observadores portugueses e garante que recebeu do «Governo ordem para sair». Pereira Gomes refere os elogios feitos por Ramos- Horta à «coragem e sacrifício» dos observadores portugueses.
Ana Gomes desvaloriza e recorda que «Ramos Horta não estava em Timor, estava em Nova Iorque a fazer diligências importantíssimas». A ex-embaixadora de Portugal em Jacarta revela que, após a saída da missão portuguesa, recebeu «muitos telefonemas» de timorenses desesperados com a situação e um deles foi de Aida Ramos Horta, irmã de Ramos-Horta, que se encontrava na sede da Unamet (Missão das Nações Unidas em Timor-Leste.) «Foi um dos telefonemas que mais me impressionou e não vou esquecer o que ela me disse. Não vou dizer o que ela me disse, mas tem muito a ver com a decisão que tomei de falar neste momento».
O primeiro-ministro manteve a confiança em Pereira Gomes até ao fim. António Costa classificou esta polémica como «anacrónica». Em comunicado, o primeiro-ministro já tinha vindo caucionar a versão do diplomata com a garantia de que «não houve qualquer desobediência por parte do embaixador».
Santos Silva, ministro do Negócios Estrangeiros, ainda veio garantir, 24 horas antes da renúncia, que Pereira Gomes era «uma muito boa escolha», mas nessa altura a situação já se tinha tornado insustentável.
«Temos uns serviços frágeis e o que aconteceu não ajuda»
O PSD critica o processo de escolha do secretário-geral do SIRP. O ex-ministro da Justiça de Passos Coelho e deputado Fernando Negrão defende que «a exigência deveria ter sido e deve ser muito maior». Negrão, em declarações ao SOL, afirma que «já temos serviços de informações frágeis por falta de instrumentos para poderem agir com maior eficácia e o que aconteceu não ajuda a ter uns serviços que funcionem com eficácia». O deputado diz que o PSD «aguarda decisões rápidas para normalizar toda a situação».
«O PS não sabia quem era?», questionou Telmo Correia
O CDS também fez duras críticas ao primeiro-ministro pela forma como geriu este processo. «Houve uma péssima gestão deste dossier. O PS não sabia quem era?», questionou Telmo Correia.
Costa não deixou, porém, de elogiar «o elevado sentido de Estado com que os partidos da oposição agiram na presente circunstância».
O primeiro-ministro ainda não indigitou o próximo secretário-geral do SIRP, o que poderá acontecer nos próximos dias.