As Lisboas de Lisboa

Lisboa, pequena em área geográfica, exclusivamente urbana, contém uma enorme diversidade que constitui a sua riqueza e a torna desafiante. Lisboa vai muito para além do eixo central e das zonas que concentram o turismo. Lisboa é muito mais que a cidade cosmopolita e da moda. Existem outras Lisboas. A Lisboa que não tem a…

Lisboa está entre os 50 municípios com menor área de Portugal Continental, constituindo-se como um contínuo urbano que dispõe, ainda assim, de realidades urbanísticas muito diversas. Lisboa é o município mais populoso do país com uma imensa diversidade social na origem, na cultura, no credo, nas condições socioeconómicas, nas habilitações académicas, entre outras.

É a diversidade que a torna representativa do país e que potencia a sua capacidade de acolher quem vem de fora – constituindo o melhor atributo para que se afirmar como a capital de Portugal.

O Governo da cidade deve ser o governo para as pessoas. Para os lisboetas em primeiro lugar. Para quem reside e, depois, para quem trabalha ou estuda, para quem investe e para quem nos visita. Governar é fazer opções. Gerir uma realidade diversa como Lisboa é complexo. Conciliar interesses por vezes concorrentes é um desafio. Mas a prioridade tem de ser inequívoca: os lisboetas!

Lisboa tem sido gerida com total omissão na intervenção e na regulação, e com o foco em prioridades erradas. Por um lado, a Câmara tem-se demitido de regular as funções na cidade, seja na habitação ou nas atividades turísticas. O que parece ser uma contradição tornou-se uma realidade em Lisboa: um governo socialista com uma prática ultraliberal. Por outro lado, as prioridades da atual gestão têm-se centrado na cosmética da cidade, de modo a que fique mais agradável mas com consequências para a vida urbana, seja na circulação ou no estacionamento. A Câmara centrou a sua atividade na atenção em quem nos visita e esqueceu os que residem.

Lisboa são os idosos (cada vez em maior número), que precisam de cuidados de saúde, de transportes adequados, de apoio comunitário e intergeracional. Os idosos precisam de atenção e de não se sentirem abandonados.
Lisboa são as crianças e os jovens (cada vez em menor número), que precisam de escolas com obras sem atrasos, de atividades que os integrem na comunidade, de habitação acessível. Os jovens precisam de ter oportunidade de viver em Lisboa.

Lisboa são as zonas centrais que têm de ser geridas com equilíbrio para que não excluam os lisboetas. O comércio que não pode ser descaracterizado, a habitação que tem de ser para os lisboetas, o espaço público que não pode ser ocupado em permanência.

Lisboa são os bairros históricos, que precisam de ser preservados porque neles está parte da identidade da cidade e os seus habitantes têm de ser respeitados.

Lisboa são as periferias, que têm sido esquecidas e onde não há investimento, porque não têm turistas, em que o lixo se acumula, as ruas se enchem de buracos, a reabilitação urbana não se faz e os transportes não chegam.

Lisboa precisa de ser governada de forma equilibrada na gestão dos interesses e na definição das prioridades. As zonas centrais e o turismo são importantes, mas Lisboa vai para além do centro – e é, sobretudo, a gente que nela vive.