A água é ou não um direito humano? Foi a partir desta questão que começou novamente a polémica em torno da privatização da água. A questão foi levantada, há uns anos, por um dos ex-CEO da Nestlé e, apesar de muitos se terem revoltado contra a perspetiva de Peter Brabeck-Letmathe, a ideia não podia ser mais simples: a água devia passar a ser tratada como qualquer outro produto, a obedecer à lei da procura e da oferta.
“A água de que cada um precisa para a sobrevivência é um direito humano, e deve ser disponibilizada a todos, onde quer que estejam, mesmo que eles não se possam dar ao luxo de pagar por isso. No entanto, também acredito que a água tem um valor. As pessoas que usam a água canalizada para a sua casa para irrigar o relvado, ou lavar o carro, devem arcar com o custo da infra-estrutura necessária”, afirmava em 2005.
Também em Portugal o tema da privatização das águas foi debatido por várias vezes. Uma delas aconteceu em 2015. O então ministro do Ambiente, Jorge Moreira da Silva, garantiu que a última palavra era um ‘não’ à privatização das águas em Portugal. No entanto, defendia a reestruturação do sistema de tratamento e fornecimento de forma a conseguir assegurar a sua “sustentabilidade económica e financeira”. Moreira da Silva acalmava assim os autarcas e explicava que tinha sido “necessário aumentar as tarifas em municípios do litoral para reduzir os custos no interior”, dando assim “maior equidade”, no custo da água, “a nível nacional”.
“O debate da privatização é um debate fácil. É um debate numa lógica maniqueísta: ou sim ou não. Esse debate está arrumado. Não haverá privatização das águas em Portugal”, garantiu ainda o governante.
Austeridade como pretexto
Em 2012, a então ministra do Ambiente deixava antever as intenções da troika em relação à empresa Águas de Portugal. “Dissemos que precisávamos de tempo e temos até 2012 para fazer uma reestruturação do grupo ADP e só depois disso será conhecido o modelo de privatização”, disse.
Em reação às declarações surgiu então um movimento nas redes sociais chamado “Movimento pela Água – Privatização da Água a referendo”. Na página de Facebook podia ler-se: “Nenhuma empresa privada ou multinacional arriscaria no negócio da água se o mesmo não gerasse lucros de milhões. Qual o interesse de privatizar este bem público que é acima de tudo um direito humano?”
Ouro azul
Em 2016, estudos da ONU e da Unesco revelaram que, se o consumo de água continuasse nos mesmos padrões em todo o mundo, o défice chegaria a 40% já em 2030. Além do problema dos desperdícios, outros dos alertas tinha a ver principalmente com a poluição. De acordo com as análises feitas, torna-se cada vez mais caro tratar a água para que possa ser consumida.
Mas ainda há mais. Vários especialistas chamaram a atenção mundial, em 2012, ao considerarem que a escassez de água pode vir a causar conflitos vários no futuro. Até porque dados da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico) mostravam que a procura mundial de água aumentaria 55% até 2050. A previsão era ainda feita com base em dados assustadores: de acordo com os especialistas, caso não fossem tomadas medidas apertadas para reverter os padrões de consumo mundial, nesse ano, 2,3 bilhões de pessoas não teriam acesso à água.
Consequências podem ser trágicas
Há anos que parte da população mundial consome água contaminada. Outros não conseguem ter água suficiente para o desenvolvimento industrial e para as plantações. As conclusões fazem parte de um dos relatórios sobre a crise da água elaborado pela Organização das Nações Unidas que, além de confirmar que o futuro pode ser trágico –caso não haja uma mudança nos hábitos das populações –, evidencia que o problema da falta de água já afeta milhares de pessoas em todo o mundo.
Um dos alertas de maior dimensão vai no sentido de sublinhar que as mudanças climáticas desempenham papel fundamental em todo este quadro. Embora seja difícil antever o que vai acontecer ao clima, existem cada vez mais previsões para aumento de condições extremas, como cheias, furacões e tornados. Um cenário que preocupa os especialistas, pois esses fatores podem aumentar a quantidade de lixo acumulado em fontes de água. Já o aumento da temperatura global também pode, de acordo com a análise feita pela ONU, piorar a qualidade da água.
Além disso, há outros problemas a preocupar os especialistas. Um outro relatório, desta vez da Organização Mundial de Saúde (OMS), refere que a escassez é apenas parte do problema. A contaminação e a degradação dos ecossistemas aquáticos já fizeram muitas vítimas em todo o mundo. Por ano, mais de cinco milhões de pessoas são atingidas por problemas de saúde que decorrem da ingestão de água contaminada ou do contágio por insetos que estão em contacto com as águas poluídas.
Tecnologia quer ajudar
Um grupo de engenheiros da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos da América, apresentou uma nova ferramenta digital que tem dois grandes objetivos: combater a seca e potencializar o uso de água reaproveitada e da chuva.
“Uma ferramenta como esta permite que as comunidades compreendam melhor o potencial de um sistema no qual as águas pluviais e a água reaproveitada se transformam em reserva de água subterrânea”, explicou um dos criadores do software que pretende otimizar o uso de águas residuais e reaproveitar a água da chuva.
Para os engenheiros, é cada vez mais urgente fazer com que as comunidades entendam que é necessário estarem preparadas para as secas futuras. Mas, mesmo com a tecnologia a ajudar, os alertas são velhos e apontam numa única direção: é preciso poupar água.