Sara Tavares: “Já despi uma série de peles”

Sara Tavares é tímida. Fora dos palcos, entenda-se. Fala baixinho, mas fala bonito, assim como as letras das suas canções. Mas falar bonito e baixinho não é sinónimo de falar sem mensagem, nem missão, ou sem agruras. Está a menos de três meses de fazer quarenta anos. 

Parece que foi ontem que a miúda de 15 ganhou o Chuva de Estrelas, mas, como em todos os marcos da vida que se vão acumulando, as décadas também são muito tempo. São 25 anos a cantar e a compor, umas bodas de prata com intervalos necessários pelo meio.

Desde 2009, ano em que lhe diagnosticaram um tumor benigno no cérebro, que não publicava em nome próprio. Estava exausta. Os sapatos de artista, após palmilharem tantos palcos de seguida, romperam. Nestes oito anos não parou de cantar e de compor. E de ensaiar, tanto que conversámos num dos seus poisos dos últimos tempos, o Teatro-Estúdio Lanterna Mágica.

O pretexto foi o seu novo disco, Fitxadu, lançado a 27 de outubro. Um regresso com a certeza do que já não quer – aprendido à custa de muitos anos a dizerem-lhe alguns, com os olhos doces, vem por aqui. Sara foi indo, e foi sabendo que não era por aí. Não era pelo caminho das mornas, ou da imitação da sua referência de adolescente, Whitney Houston, ou dos coros de gospel.

Ela própria era outra coisa, tinha outro som dentro dela por sair, nervo central que encontrou e que é mais claro do que nunca neste trabalho. Em Fitdxadu canta a lusofonia, esse espaço que, diz ela, ainda tem tantas barreiras.

Nascida em Portugal, filha de cabo-verdianos, Sara só há de visitar Cabo Verde aos 15 anos, integrando a comitiva do então Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva –, criada por uma avó adotiva portuguesa e branca, vivendo entre e com duas culturas e não percebendo porque se nasce a cantar em inglês neste país, a conversa deambulou, naturalmente, por estas fronteiras.

Nasceu em Lisboa, os seus pais são cabo-verdianos. Conte-nos um pouco do contexto da vinda deles para Portugal.

Só vim mesmo nascer a Lisboa, à Maternidade Alfredo da Costa. O meu irmão mais velho, que tem um ano de diferença de mim, e a minha irmã mais nova nasceram no Hospital de Almada. Foi só nascer e ir para o Pragal, onde fui criada. Não sei a data exata da chegada dos meus pais. Vieram de Cabo Verde, os dois, e conheceram-se em Lisboa nos anos 70. Os meus pais são de ilhas diferentes, a minha mãe é de Santo Antão e o meu pai é de Santiago.

Os seus pais falavam regularmente das ilhas onde tinham crescido, quando lá chegou já tinha algum imaginário dentro de si ou foi tudo uma descoberta?

Pouco ou nada. Os meus pais não falavam muito de Cabo Verde. Viviam Cabo Verde. Mas eu também não fui criada com os meus pais. Fui criada com a avó Eugénia, que era uma avó adotiva, portuguesa, e portanto não tinha também o imaginário de Cabo Verde. Ia passar as férias com a minha mãe, que se tinha separado do meu pai e que foi viver para o Algarve. Então aí tinha o imaginário da ilha de Santiago, que fica bem a Sul, com mais proximidade de África e que é muito diferente de Santo Antão, que fica bem a norte. Santo Antão fica bem mais próximo das Canárias, mais próximo da Europa. Cabo Verde tem dez ilhas e são muito diferentes entre si.

 

Onde vai buscar todo o referencial cabo-verdiano que assume como tão seu, tendo sido criada por uma mulher que não o conhecia?

Lá está, quando ia passar férias com a minha mãe. A minha mãe esteve comigo até aos quatro anos e depois é que fiquei completamente só com a avó Eugénia, que era nossa vizinha. Nessa altura o meu pai voltou para Cabo Verde e a minha mãe mudou-se para o Algarve. Desde então ia passar as férias de verão, natal e Páscoa com ela e com os meus irmãos. E nessa altura é que comia cachupa e que havia aquelas festas e todo o ambiente era africano.

 

Vivia em dicotomia, então, metade do ano com uma avó portuguesa…

Sim, que fazia bacalhau, ervilhas com ovos escalfados, que via novelas. E de repente tinha a minha mãe completamente afro.

 

Como foi crescer e beber destes dois mundos?

Na altura não ligava muito, sentia só muitas saudades por não estar sempre perto da mãe e dos irmãos, eu fui a única que ficou. Mas depois também tinha saudades da avó Eugénia. Metade do ano tinha uma família grande e depois, de repente, era filha única.

 

Isso na cabeça de uma criança é mais fácil de processar do que na de um adulto?

Não, não é. Uma criança está programada para estar com os pais por isso fazia-me confusão. Foi sempre estranho, e só com o passar dos anos e com a descoberta de Cabo Verde é que curei algumas coisas porque percebi que [a separação] faz parte da realidade cabo-verdiana, por ser uma ex-colónia, por ser um arquipélago, por ser um país pobre, por ser um país subdesenvolvido, que já não é. Tudo isto fazia com que as pessoas fossem maioritariamente imigrantes e que as crianças fossem deixadas com tios, com irmãos, com os avós.

 

Dos primeiros tempos de infância, se fechar os olhos, consegue dizer-me um momento que a tenha marcado?

Ainda antes de me separar da minha mãe, nós vivíamos num sótão no Pragal e muitas vezes ficava sozinha com o meu irmão mais velho. Chorava baba e ranho, porque não gostava – tinha para aí três anos, ele tinha quatro. E então ele saía de casa pela janela, havia lá fora umas capoeiras, e ia buscar pintos, pintainhos, para eu não chorar, para me entreter.

 

Conhecer a história de outros cabo verdianos fez com que aceitasse melhor a sua própria história?

Sim, conheci muitos irmãos meus criados em Cabo Verde por outras pessoas da família. E pensei que não era só a mim que o meu pai e a minha mãe viam ao longe. A minha própria mãe foi criada por uma tia. Era um ciclo. Infelizmente, por questões de sobrevivência. Por isso é que a canção mais conhecida de Cabo Verde acabou por ser o ‘Sodade’. As pessoas têm que partir, de ir à procura.

 

A primeira viagem que fez a Cabo Verde foi feita com o Presidente Aníbal Cavaco Silva, depois do Chuva de Estrelas. Teve que ganhar um concurso para conhecer a terra dos seus pais.

Sim, é tudo muito irónico! Até porque Cavaco Silva, não sei se ele sabe, é da terra onde vive a minha mãe, Boliqueime (risos).

 

Como foi essa viagem?

Cantei logo na cerimónia em que fomos recebidos por uma das grandes bandas de Cabo Verde, que eram “Os Tubarões”, que faziam parte história do arquipélago e eu não tinha a noção disso. Amei a viagem, tive visitas guiadas à ilha, conheci os melhores pratos, as melhores praias…

 

Falava crioulo?

Entendia tudo, mas não falava. Aprendi a falar depois, foi mesmo ou vai ou racha. Todos os cabo verdianos recusavam-se a falar em português comigo, assim que saí do avião só falavam crioulo, era provocação mesmo. Fiz questão de aprender crioulo porque é riqueza. E até porque tantas vezes me tinha sentido cá de uma forma… As crianças são cruéis, mandaram-me muitas vezes para a minha terra.

 

Esta semana o Diário de Notícias publicou uma reportagem sobre afrodescendentes, em que algumas crianças usam essa mesma expressão.

Ainda hoje? Não tinha noção, que isso acontecesse no meu tempo até entendia. Agora? Não tenho comentários para isso.

 

Porque diz que até entendia?

Havia poucas referências visíveis. Hoje em dia há uma Cláudia Semedo na televisão, uma Ana Sofia na moda, há tanta gente, já não é só no desporto. E há outras etnias, há um António Costa como primeiro-ministro, há pessoas em tantas áreas de relevo de todas as raças, cores e feitios, há referências. Na altura havia o Eusébio e a Mara Abrantes. Por isso se houvesse um preto que passasse num carro até os pretos diziam: ‘Olha um preto num carro’. Tipo, era uma coisa diferente. No meu tempo havia uma espécie de segregação.

 

Sentiu isso na pele?

Tive a bênção da amizade, fui criada por uma senhora branca, vinha das Janelas Verdes. O Pragal era uma comunidade maioritariamente de portugueses e sempre me trataram muito bem. Mas assim que saía dali… Senti. Não posso dizer que não senti. Hoje a maior parte dos bairros sociais foram exterminados, e o maior bairro, que tenho o maior orgulho nele, a Cova da Moura, em que embora ainda haja algumas confusões, tem feito um trabalho extraordinário a divulgar as coisas boas que lá se fazem. Os outros bairros que foram também tinham muita coisa má, mas claro que quando não se dá acesso à educação e as pessoas ficam à margem, fazem porcaria. Ironia das ironias, vai acontecer isso aos portugueses [serem expulsos]. Moro ali na Graça e há pouco tempo estava a ir a pé de Alfama para a Graça. Um senhor em Alfama parou-me, era o Quim, e disse-me: ‘Epa, tu que tens o dom da fala é que devias dizer isto. Nós éramos dez mil habitantes em Alfama e agora somos mil, só vivem aqui estrangeiros, é tudo hostels’. Eles estão a ser marginalizados.

 

Já contou antes que se lembra de ter começado a cantar com nove anos.

Sim, foi isso. Tirei o autocolante de uma embalagem de desodorizante – lembro-me da cor e tudo, era verde, daquela marca Fá – e foi o meu microfone durante muito tempo.

 

Era aquele tipo de criança que cantava na escola e que queria participar nos teatrinhos?

Não, era muito tímida, ainda hoje sou, tive que desenvolver um bocadinho esse lado por ser cantora. Não sou nenhum bicho do mato, mas sempre fui muito tímida sem ser em palco. Mais tarde, no liceu, já cantava nas aulas de educação visual, que eram as mais longas. E quando me pediam para cantar, cantava muito baixinho. Cantar em público, never!

 

Como se passa disso para a participação no Chuva de Estrelas?

Ainda antes disso, eu adorava a Whitney Houston, adorava os cantores negros americanos, o Stevie Wonder, o Michael Jackson, a Tina Turner, e quando conseguia via na televisão a história deles. E percebi que eles vinham da Igreja, comecei a prestar atenção, a pensar de que igreja viriam, porque a minha avó, como uma típica portuguesa, levava-me sempre à igreja católica, mas lá não se passava nada da música que via, até que percebi que vinham de igrejas evangélicas. Então comecei a procurar e com 13 ou 14 encontrei uma igreja batista em Almada, fui lá à procura do gospel, à espera de gente a bater palmas e ainda não era nada daquilo (risos).

 

É caso para dizer que andava a ver muitos filmes.

Andava a ver bué da filmes (risos). Mas fui andando e soube de uma convenção evangélica que era, e é, organizada por um missionário norte-americano, em Benfica, feita com artes. O missionário era o Dale Chappell, revolucionou com música as igrejas evangélicas, e ainda hoje é o meu professor de canto. Foi ele que trouxe o gospel que esses sítios não tinham, era tudo um bocado seca, entre aspas. Numa dessas convenções havia um coro, entre outros números artísticos, e faltava uma solista, ele soube de mim e eu fui.

 

Podia ter começado a cantar qualquer estilo de música, podemos dizer que ter começado por aí foi um bocadinho a junção desses dois desejos: cantar e procurar as suas raízes.

Raízes? Não era africanismo, era a cena de cantar com feeling. Ouvia a Whitney, e o Steve e o James Brown e pensava: ‘Como é que eles cantam assim!’ Queria a raiz daqueles gritos, daquele feeling todo, porque não ouvia isso em cantores portugueses. Ouvia Rui Veloso e dizia ‘ya, esse canta com feeling’, mas eu com 13 anos… Havia uma emoção que queria descortinar. E um ano depois da igreja fui ao Chuva de Estrelas.

 

Lembra-se da primeira audição?

Sim, e de não saber ao que ia, e de apanhar o barco em Cacilhas até ao Terreiro do Paço, de ir a pé para o Alto de São João, para o estúdio. Fui com um vizinho, porque na altura a minha avó já estava muito velhinha. Fomos andando, subindo a Almirante Reis. Imaginava que era mais parecido com o que vemos hoje em dia, com muitos bons cantores, agora o nível subiu muito. Acho que éramos mesmo muito maus (risos). Não tinha a noção do meu nível, achava que era mesmo muito má porque o meu nível de comparação era a Whitey Houston (risos). E fui cantar o ‘Greatest Love Off All’, ensaiava muito, todos os dias, muitas horas.

 

Nessa fase já estava decidida a ser cantora ou só cantava para aquele programa em específico?

Nessa altura nem sabia que ia haver programa. Era só pelo sonho e pela música, achava que era impossível porque aqueles cantores só existiam na América, não tinha o mínimo de interesse pelo tipo de música feita cá na altura.

 

Que comentários ouvia quando dizia que queria ser cantora?

Diziam que cantava muito bem mas que devia ter nascido na América. E na escola, como não tinha os meus pais comigo, havia alguns professores que foram quase tutores, que se preocupavam muito. A minha avó não sabia sequer assinar, então alguns preocupavam-se com o meu sucesso escolar e com o que queria fazer. Eu dizia que queria ser cantora, e eles ‘ok, mas a sério?’. Estava na área de Design, até desenhava bem.

 

Chegou a concluir?

Não, depois do concurso ainda andei dois anos à noite. O prémio por ganhar o Chuva de Estrelas era um carro e um contrato para fazer um disco com a BMG. Decidi fazer um disco de Gospel e formámos um coro que ainda existe, os Shout!. Fizemos alguns originais e depois covers e fizemos estrada. Era um bocadinho esquisito porque eu cantava o ‘Chamar a Música’ e Gospel, era meio cómico. As pessoas gostavam porque soávamos bem mas era um bocado insólito. (risos)

 

Há uma altura em que a sua carreira dispara e começa a fazer tournées sem parar.

Já foi depois do Balancé [2005]. Depois desse disco inicial Sara Tavares e Shout! [1996] a BMG quis fazer mais um disco comigo. Parei e pensei bem, queria fazer alguma coisa com o acento afro. Andei, andei, andei, fui aos Estados Unidos conhecer um produtor que tinha trabalhado com a Lauren Hill, mas depois fui lá e não me identifiquei muito com ele. Acabei por encontrar um produtor em França, congolês, que fazia um estilo de música afro, meio r&b e soul e lancei o Mi Ma Bô [1999], que ainda foi disco de ouro ou de platina, não me recordo – não é displicência é só distração.

 

Na sua carreira tem sentido necessidade de parar para decidir o que fazer, embora mais tarde a paragem tenha sido forçada por estar doente. Acha que esses momentos são importantes para chegar ao estilo, à identidade que quer ter na música?

Para mim, sim, tenho necessidade de me descobrir. Está mais claro para mim agora, já descobri uma série de coisas, já despi uma série de peles. Mas se tu chegares agora neste planeta e aterrares em Lisboa, e se fores músico e ligares a rádio e fores só colhido por essas influências, tu vais fazer música americana. Na rádio ouve-se Bruno Mars, Coldplay, Ariana Grande, Beyonce, por aí fora. Ouve-se 2% da lusofonia, que é o que nós somos, a cultura em português é mínima. Não é automático perceber quando se vai fazer alguma coisa original, não é lógico pensar que a identidade é nossa. Quando um americano nasce na América, é normal ele ser americano, ele não se questiona.

 

Mas falou-me aí da lusofonia, um conceito muito lato.

Pois, mas nós não nos valorizamos enquanto lusofonia. Não defendemos essa marca, até pelo passado colonial, há esse separatismo. Não há estatutos privilegiados para se circular no espaço lusófono, uma pessoa que vem de Angola ou que vá daqui para lá não tem facilidades especiais.

 

Desde que começou a cantar até agora sente que essa situação está diferente?

Acho que há pessoas da minha geração que já se identificam com esta mesma identidade lusófona, até porque os brasileiros fizeram muito por isso, estão muito em paz com a sua própria… Eu, a malta do hip hop, contribuímos muito para isso, para que a minha geração e as seguir, mais novos, nos sintamos mais normais, mais inseridos.

 

Continua a voltar regularmente a Cabo Verde?

Sim, sempre. Sou madrinha de uma escola de artes lá, já dei concertos, para além dos meus amigos de infância aqui, tenho os melhores amigos da minha vida lá. E muita família lá, a outra continua cá, no Algarve, mas também em Lisboa, em Boston, no Canadá… Os cabo verdianos são muito espalhados.

 

É verdade que a primeira vez que conheceu a Cesária Évora ela mandou-a comprar cigarros?

Sim, mas foi a maneira carinhosa dela ser, acho que a Cesária com quem ela se sentia bem era assim. Era uma pessoa muito tranquila, muito simples.

 

Em 2009 descobriu que tinha um tumor benigno e os médicos disseram-lhe que havia a possibilidade de ficar muda. Como se recebe uma notícia destas, sendo uma pessoa para quem a voz é…

Fundamental. Acho que as doenças são psicossomáticas e que o sonho que eu tinha extravasou um bocadinho noutros interesses, o que também não tem mal nenhum, porque a música também é um produto e vende-se. Há uma rede há volta de um CD, que vai para a fábrica, depois há agentes, marcam-se concertos com muita antecedência, às vezes com três anos. E vamos dizendo que sim a uma distância enorme, e de repente de janeiro a janeiro há uma agenda cheia. Chega-se lá sem energia e é preciso cumprir os contratos, que envolvem muitos gastos. Não é culpa de ninguém.

 

Está a dizer que esse processo repetido durante anos a esgotou.

A qualquer um! Às vezes as pessoas apontam o dedo aos artistas porque são excêntricos… Vão lá calçar os sapatos e digam. Basta dizer que não a uma pessoa, ou estar de cara feia que se deixa logo de ser simpático, já não se é fixe. As pessoas levam muito a peito. Toda a gente quer um momento particular e irrepetível contigo. Se fazes isso em todos os concertos numa tournée, atendes 100 fãs, como eu fazia sempre, até à última pessoa, não vai dar. Também foi isso que acho que me criou o esgotamento e, por fim, aquele diagnóstico.

 

E aquela hipótese concreta de perder a voz?

Tenho a criação da igreja, tenho um contacto espiritual muito forte, uma relação com as coisas que não são pragmáticas muito forte, então não me assusto facilmente. Claro que choro, zango-me, grito. Para já foi um grande alívio porque pude cancelar a agenda com justa causa, não tive que pagar nada a ninguém e ninguém ficou chateado comigo (risos). Tinha uma agenda nas costas enorme para os dois ou três anos seguintes.

 

Relativizou.

Sim e acreditei muito que não iria ser nada. E a tecnologia da medicina está muito avançada.

 

Ainda assim nestes oito anos de interregno, sem publicar em nome próprio, foi fazendo várias coisas.

Sim, fiquei dez meses a recuperar e depois segui. Curiosamente, logo em 2010, fui cantar ao Palácio de Belém a convite de Cavaco Silva outra vez. É engraçado. (risos) Agora tenho que ter calma, não posso fazer muitos concertos ou muitas viagens.

 

Sobre este seu Fitxadu [fechado em crioulo cabo-verdiano] já disse que este nome pode ser o fechar de ciclo de oito anos sem gravar; Fitxadu também é uma expressão crioula que significa blindar as coisas boas no peito, no seu caso a música. Fitxadu é ter agora tudo em aberto para outros ciclos que aí vêm?

É um título de uma canção que canto com um amigo cantor de Cabo Verde, Princezito, e a palavra sai de uma frase bem grande na canção, que diz [em português] ‘as coisas boas do mundo não têm corte, estão fechadas. Isso dá para tudo, quer dizer que a música, o amor, a amizade que tenho por esse amigo em particular, por Cabo Verde, não tem corte. Quer dizer que adoro a música e os músicos. Os meus amigos, que são excelentes, tiveram uma participação muito ativa neste meu disco que é deles, partilho a autoria, os arranjos, a produção. O meu respeito e consideração por essa parte versus o cansaço ou as coisas más que a música me possa trazer é muito maior. A balança está desequilibrada para esse lado.

 

Na capa do disco está a tocar bateria. Porquê?

Antes de aprender a tocar guitarra aprendi a tocar percussão. Não sou muito de ficar a cantar em casa, fico mesmo mais a bater e a fazer ritmos. Por isso foi uma imagem natural. No disco também toquei baixo e teclas, mas muito básico, e também faço beats.

 

Divertiu-se neste Fitxadu?

Muito! E tenho muita vontade de fazer mais um disco, vários, aliás, mas fazer já um de seguida. Na verdade estive bastante tempo a pensar neste disco e a compor, mas depois no estúdio estive poucos meses. E fiz bastantes músicas que não entraram. Algumas dou, há pessoas que me pedem músicas, normalmente tento conquistá-las para fazer junto.

 

O que são para si ‘Coisas Bunitas’?

Os meus sobrinhos. Quando as pessoas são generosas quando não têm que ser. Fazer arte é uma coisa muito generosa, porque ninguém repara em 90% da arte que é feita. Acho engraçado o que o Vhils faz, vai para um beco num bairro da lata e não para Times Square, e só isso é uma mensagem muito forte.

 

Sobre os seus sobrinhos, houve uma altura em que dizia que eles tratavam os outros tios todos por tio e a si, que andava ausente em trabalho, só conheciam por tia Sara Tavares. Já é só ‘uma’ tia Sara?

Ontem o meu sobrinho disse uma coisa que me surpreendeu. ‘Essa voz que está aí na rádio é da minha tia, eu não sei como é que ela faz para sair da rádio, mas ela está a sair da rádio!’. Ou seja, já acha é estranho que esteja a sair da rádio (risos).