Um dia destes há um sismo a sério

O ‘pequeno’ sismo sentido esta semana no Sul de Portugal devia ser pretexto para encararmos o risco sísmico com seriedade. Mas receio que ainda não seja desta vez que o problema é abordado com a responsabilidade com que devia ser.

Infelizmente vamos continuar a pensar num sismo como algo distante (no passado e no futuro) ou que apenas acontece aos outros. Fizeram-se uns planos de emergência para a ocorrência de sismos mas a prevenção e a mitigação do risco sísmico continuam por fazer. 

A história e a ciência permitem afirmar que recorrentemente ocorre um grande sismo afetando a área metropolitana de Lisboa e que esta zona do país é a zona com maior perigosidade sísmica, decorrente da proximidade de grandes falhas geológicas. Lisboa, em particular, encontra-se sobre falhas geológicas com significado sísmico.

Em Lisboa ocorrerá um grande sismo. Não se pode prever quando, mas pode afirmar-se que por cada dia que passa se aproxima mais o dia de um sismo de grande significado. Pode ser hoje, daqui a um ano ou daqui a 50 anos, mas vai acontecer.

Lisboa é a segunda cidade europeia com maior risco sísmico. Esta circunstância resulta da proximidade das falhas geológicas já referidas, das características geológicas do próprio território, das características do edificado e da falta de prevenção, nomeadamente da ausência de fiscalização quanto à vulnerabilidade sísmica das construções, bem como da ausência de normas para o reforço sísmico dos edifícios.

A comunidade científica, sustentada por simulações, afirma que um terramoto semelhante ao de 1755 provocaria cerca de 25.000 mortos, um número igual ou superior de feridos e mais de 20.000 edifícios totalmente destruídos na área metropolitana de Lisboa, com prejuízos económicos da ordem dos 40% do PIB nacional.

Existem planos de emergência, simulacros e conselhos vários sobre o que fazer em caso de tremor de terra. As construções mais recentes obedecem a regras de resistência sísmica que se julgam adequadas. O problema é que a grande maioria das construções é anterior a essas exigências de segurança.

A reabilitação urbana que se verifica em Lisboa podia ser uma oportunidade para intervir no reforço da resistência sísmica dos edifícios; no entanto, fruto de uma legislação insuficiente, por falta de regulamentação e, sobretudo, por falta de vontade política, a reabilitação urbana está a aumentar o risco sísmico na cidade de Lisboa.

O risco sísmico mede-se pelas consequências provocadas perante a exposição a um sismo. Se antes se tinha um edifício desabitado, degradado e por isso com pouco valor, a reabilitação promove a sua ocupação e valorização. Não tendo sido sujeito a reforço sísmico, a vulnerabilidade do edifício mantém-se mas as consequências agravam-se em danos humanos e materiais. Por outro lado, muitas intervenções de reabilitação em edifícios diminuem-lhe a resistência, seja por aumento do número de pisos sem reforço estrutural ou por danos em elementos estruturais das construções. Estas circunstâncias conduzem ao aumento do risco sísmico dos edifícios.

Importa criar uma estratégia nacional, metropolitana e municipal para a mitigação dos riscos sísmicos através de um compromisso nacional que envolva todos os intervenientes: decisores políticos, técnicos e empresas.

É urgente avaliar a vulnerabilidade sísmica dos edifícios públicos, nomeadamente hospitais e escolas, edifícios de utilização coletiva, impor o reforço sísmico dos edifícios alvo de reabilitação e estudar a criação de uma certificação sísmica dos edifícios.

Os sismos são inevitáveis mas as suas consequências não. Não tomar hoje as medidas necessárias para diminuir o risco sísmico é ser cúmplice de uma tragédia que acontecerá no futuro.