Sporting. Rabos e orelhas em Madrid!

O Atlético de Madrid-Sporting faz ecoar um nome: Jesus Correia. Houve uma tarde na qual marcou seis golos aos colchoneros! Consecutivos

Cândido de Oliveira, Mestre Cândido, o verdadeiro mentor dos Cinco Violinos do Sporting, escreveu sobre ele: “Jesus Correia, como futebolista, foi um jogador extraordinário pelas características particulares originárias do hóquei. Não era, em rigor, um futebolista. Era, antes, um hoquista transplantado para o futebol. Talvez seja preferível dizer: era um hoquista-futebolista… Mais de metade dos seus movimentos eram mais de hoquista do que de futebolista! As suas jogadas mais frequentes, no drible ou no remate ao golo, vinham oriundas do hóquei.”

Agora, não tarda nada, o Sporting vai defrontar o Atlético de Madrid para a Liga Europa. Ah! Como soam as campainhas das memórias leoninas quando se fala do Atlético de Madrid!

Inesquecível é o termo ajustado como uma luva de pelica das senhoras lisboetas que, no tempo do divino Eça, iam de longada até ao Passeio.

Adiante, adiante.

Dia 5 de setembro de 1948.

Os Cinco Violinos iam caminhando para o final da sua história maravilhosa. Dez meses depois, com o abandono de Peyroteo, deixaram de jogar juntos. Mas nessa tarde mágica, no Estádio Metropolitano, foram tremendos. Sobretudo Jesus Correia.

O Atlético de Madrid fora o terceiro classificado do campeonato espanhol da época anterior, logo atrás de Barcelona e Valência. Não podia contar ainda com a sua nova figura de estilo incomparável: Ben Barek, primeira grande estrela africana a brilhar nos céus da Europa.

Excelência! Atingir a excelência: outra expressão a propósito.

9 minutos, 0-1: Peyroteo lança Jesus Correia em velocidade, este isola-se frente ao guarda-redes Domingo e faz o golo com facilidade.

20 minutos, 0-2: Peyroteo tem uma arrancada desde o seu meio-campo e, já junto à área madrilena, toca para Jesus Correia fazer o golo com um remate colocado.

32 minutos, 0-3: série de tabelinhas entre Peyroteo e Jesus Correia e este a concluir com um remate forte.

34 minutos, 0-4: Albano lança Jesus Correia para novo sprint imparável até ao golo.

Ao intervalo, Travassos, meio combalido, dá lugar a Martins, que vai tomar a posição de ponta esquerda, ficando Albano como interior esquerdo.

49 minutos, 0-5: Jesus Correia em recarga a um remate de Peyroteo.

67 minutos, 0-6: dribles sucessivos de Vasques por entre os defesas espanhóis e passe para Jesus Correia concluir.

0-6?! Os espanhóis estavam boquiabertos. Nunca nos seus pesadelos mais sinistros tinham imaginado terramoto igual.

Jesus Correia: seis golos em Madrid! Rabos e orelhas…

72 minutos. 1-6, por Escudero.

73 minutos: 2-6, por Escudero.

89 minutos: 3-6, por Vidal.

O resultado ficava, para os madrilenos, um pouco mais compostinho. No entanto, já ninguém lhes tirava as faenas e chicuelinas a que tinham sido sujeitos por uma equipa sportinguista afinada ao som dos violinos.

Seis golos de Jesus Correia – seis!!! Como nos cartazes das touradas.

O público do Metropolitano está rendido: dedica aos jogadores do Sporting uma ovação entusiástica.

Berros da imprensa Os elogios surgem, em letra de imprensa. E em catadupa.

“Sempre que a bola era passada aos dianteiros leoninos, o pânico na meia defesa espanhola tornava-se evidente.”

E não são só os Violinos no centro das atenções: “Na meia defesa do Sporting, Canário brilhou a grande altura.”

Canário: o rapaz de Estarreja.

Momentos de mau perder sobre o relvado: “Depois do terceiro golo do Sporting, os espanhóis enveredam pelo jogo violento, carregando sempre que puderam, de preferência o guarda-redes dos leões, Dores, que fez uma boa exibição na primeira parte.”

Peyroteo sem o golinho da ordem, mas sempre em jogo: “O avançado-centro sportinguista, embora não tenha marcado golos, lutou bastante na grande área dos espanhóis e distribuiu jogo em condições, facilitando a Jesus Correia uma tarde que deve considerar-se memorável.”

Esgotavam-se as palavras: “Os interiores do Sporting lutavam com vigor, vindo atrás buscar jogo, que Vasques, brilhando a grande altura, conduzia e distribuía impressionantemente.”

O jogo de Madrid ficou para o imaginário nacional.

Cândido de Oliveira: “Não fizemos uma exibição excecional. Mas a velocidade dos atacantes do Sporting baralhou por completo a defesa do Atlético.”

À distância, os adeptos de futebol em Portugal desenharam mentalmente a extraordinária exibição dos leões.

Cândido de Oliveira não fugia a uma comparação incómoda: “Vejamos os dois extremos do Sporting: Albano e Jesus Correia. O primeiro é um autêntico malabarista, com grande domínio de bola e extraordinário poder de finta, e regular rematador com o pé esquerdo. Jesus Correia é o contrário disso tudo. Escasso domínio de bola, péssimo driblador, um pé esquerdo quase inexistente, mas a par disto velocidade de sprinter, extraordinário poder de remate com o pé direito e tão fantástico poder de improvisação que, podia dizer-se, ele trouxe para o futebol alguns movimentos e alguns lances de hoquista famoso que é.”

A vitória dos leões por 6-3 mais parecia, realmente, fruto de um jogo de hóquei em patins.

Três dias mais tarde, em Barcelona, sofreria uma pesada derrota por 1-4 nessa sua curta digressão por Espanha. O que não embaciou o brilho do momento em que Jesus Correia entrou pelas portas escancaradas da história das grandes exibições individuais.

Ele que jogava como se deslizasse sobre patins.