12 anos de escravidão

A FIFA atribuiu a organização do campeonato do mundo de futebol ao Qatar em 2010. Em 2010 o mundo reerguia-se de uma crise económica, Barack Obama era o Presidente dos Estados Unidos, foram apresentados ao mundo o Instagram e o iPad.

Em 2010 jogou-se o Campeonato do Mundo de Futebol na África do Sul. A Espanha sagrou-se campeã do mundo pela primeira vez. Ficou a memória do barulho ensurdecedor das vuvuzelas no estádios, mais tarde proibidas em vários eventos desportivos. 

Em 2014 o Mundial disputou-se no Brasil. Ganhou a Alemanha. Fica na memória os misericordiosos 7-1 aplicados pela seleção campeã no jogo com os anfitriões, levando uma nação eufórica a desabar em lágrimas uma vez gorado o sonho de ver o Brasil sagrar-se campeão em casa. 

Em 2018, o mundial foi organizado pela Rússia, ganhou a França. Primeira vez foi utilizado o VAR (video assistant referee), bateu-se o recorde do número de penalties assinalados, 29 (o recorde anterior era de 18). Recordo algumas ações de alerta para o atropelo dos direitos humanos fundamentais do governo de Putin, destacando-se a invasão de campo durante a final. Sim, na altura falou-se de direitos humanos, passaram imagens (poucas) na televisão. Mas depois passou, os russos são os russos e aparentemente o mundo vive bem assim. Ainda hoje.

A FIFA atribuiu a organização do campeonato do mundo de futebol ao Qatar em 2010. Em 2010 o mundo reerguia-se de uma crise económica, Barack Obama era o Presidente dos Estados Unidos, foram apresentados ao mundo o Instagram e o iPad.

Foram 12 anos para questionar o Mundial do Qatar. Questionaram-se as temperaturas e a realização do evento fora de época. Questionou-se a tradição e relação do Qatar com o futebol – o país tinha apenas um estádio quando foi eleito para organizar o torneio. Money talks, 220 biliões de dólares segundo a Forbes, o mundial avançou. Tem vindo a avançar nos últimos 12 anos. E agora, depois de tanto tempo e de um conhecimento profundo das leis e costumes do país, de inúmeros relatos de emigrantes sobre as condições de vida e do mercado de trabalho, é agora o tempo de discutir os atropelos aos direitos humanos? É este o tempo para nos indignarmos, 12 anos depois da decisão ter sido tomada? 

Quem chegou agora a esta onda de protesto vem tarde, quem sempre se manifestou não teve força suficiente para se fazer ouvir e impor uma discussão séria sobre o tema. O mundo do futebol assim não quis, não o fez e agora aplaude nas bancadas a eliminação do Catar na segunda ronda do torneio, a primeira equipa a sair e a primeira vez na história que tal acontece tão depressa ao anfitrião. Já os 220 biliões de dólares segundo a Forbes vão continuar a rolar. 

As marcas são parte integrante e importante do mundo do futebol. Para as desportivas, como a Adidas, patrocinadora oficial do campeonato ou a Nike, que equipa 13 das equipas que participam na prova, o campeonato do mundo é um momento único. Porventura o seu maior palco, tem nesta edição o ambicioso desafio de reverter uma  má performance do negócio nos últimos meses. Mas também a Hyundai, a Coca Cola e a Visa marcam presença enquanto patrocinadores, não resistindo ao apelo de uma previsão de 5 biliões de espetadores do evento por todo o mundo. Ao contrário do que costuma acontecer, um orgulho imenso por poderem estar presentes e associadas à festa do futebol, potenciando a experiência dos fãs e espetadores em todo o mundo, surgem comunicados a dizer que é melhor estarem presentes para assim influenciarem mudanças na sociedade catariana. Outros escondem referências ao Qatar na promoção da sua associação ao mundial. E, claro, há quem (nos) recorde o seu compromisso com associações de defesa dos direitos humanos, enaltecendo o seu papel na grande evolução que representa o aumento do salário mínimo no Qatar. Nenhum dos argumentos pega. Já os números apontam para mais de 1 bilião de dólares de receita para a FIFA este ano, fruto de contratos de patrocínio.

Gerir uma marca é torná-la o mais relevante possível para as pessoas, tornando-a indispensável pelo contributo que traz para a sua qualidade de vida e para a sociedade. As marcas não são, não querem, ser produtos e serviços, antes valores e exemplos nos quais as pessoas se reconhecem.
Talvez seja o efeito do Natal, ficamos mais solidários e sensíveis às questões sociais. Lembro-me de, há uns bons anos, ver um anúncio nesta altura com a imagem do lugar de um sem abrigo, com cartões abertos no chão a fazerem de cama e umas mantas amarfanhadas envolvendo pertences que a maioria vê como lixo. No headline a frase: «Volto em janeiro». É isto que vai acontecer no Catar, vamos todos continuar muito revoltados com a situação e a discutir o tema dos direitos humanos no intervalo do jogo. Depois do Natal a vida volta à normalidade, o sem abrigo de volta à rua e os direitos humanos continuarão a ser ignorados no Catar.

Senior Manager da Accenture Song