“O que eles ignoram”

por Nélson Mateus e Alice Vieira

Querida avó,                                                                                

Esta não é a primeira vez, e não será certamente a última, em que falo da RTP nas nossas cartas. A RTP celebrou recentemente 66 anos e não podemos ser indiferentes a esse facto.

Gostaste do Festival da Canção?

A minha geração já nasceu com a televisão a fazer parte do nosso dia a dia. No teu caso, quando a RTP nasceu, já tinhas 13 anos.

Há um antes e depois da RTP. Longe estavas tu de saber que um dia virias a casar com Mário Castrim, o principal crítico de televisão do século passado.

Ainda me recordo dos meus avós dizerem à minha mãe para não se despir em frente à televisão, pois os apresentadores viam-na em trajes menores, imagina. Vivíamos num país cinzento e durante muitos anos tivemos uma televisão a preto e branco.

Acho impressionante o programa o “Preço Certo”, apresentado pelo grande Fernando Mendes, estar em emissão contínua, na RTP1, há mais de 20 anos.

Os mais velhos ainda se recordam, entre outros, de programas como o “Zip Zip” e o concurso “A Visita da Cornélia”, que foi um estrondoso sucesso televisivo, que até deu origem a uma revista semanal e a coleções de cromos.

Os da minha geração recordam, com saudade, programas como o “Agora Escolha”, apresentado pela tua amiga Vera Roquette, o “ALF” que contava a história de um alien peludo que passa a viver com uma família terrestre e muitos mais. Já para não falar dos “Jogos Sem Fronteiras”, e do Eládio Clímaco, que chegavam sempre para nos alegrar as noites de Verão.

Os mais novos ignoram tudo isto. Certamente irão ter outras recordações. Mas o que mais me custa é quando oiço: «Não sei nem me interessa!».

E, de repente, recordo a célebre frase e que o Varela Silva tantas vezes usava quando se referia à ignorância de certas pessoas: «Não têm ontem».

Existem muitas coisas que ignoramos e que não devíamos ignorar.

Bjs

 

Querido neto, 

Não podias estar mais certo. “A ignorância é uma bênção, mas prefiro a maldição que a sabedoria me trás!”

Um provérbio que complementa, na perfeição, o assunto que abordamos na carta de hoje.

Faz-me lembrar algo impensável que vi na televisão há uns anos. Mais precisamente durante as transmissões directas do enterro de Mário Soares, imagina.

Os jornalistas lá se esforçavam perguntando a este popular e mais àquele outro popular, e mais à senhora que lamenta não ter sido feriado nacional, e à outra que leva uma fotografia de Soares que já tem há anos, e ainda outra que lamenta não ter a cultura que Soares tinha e por aí fora… Tudo gente adiantada em idade.

Porque, tirando os alunos do Colégio Moderno, que falaram bem e deram as suas opiniões, e as criancinhas da escola João de Deus, a verdade é que não se via gente jovem no enterro. E sempre que os jornalistas perguntavam aos tais populares entrevistados se os filhos saberiam o que representava Mário Soares, e se sabiam qual tinha sido a sua luta – a resposta era sempre a mesma: não, eles já não viveram isso e por isso não sabem.

Pena que eles não façam o mesmo com os seus filhos e netos, que assim tomam a liberdade e a democracia como dados adquiridos, como se nunca tivesse sido doutra maneira – e nem querem pensar no assunto.

Culpa dos pais que não conversam. Culpa da escola, que não ensina.

E este caso não é único. Sempre que se fala aos jovens da nossa história recente (claro que, para eles, 1974 é pré-história…) o desconhecimento é completo, ou então vêm com aquela frase feita, «ah isso é política e eu em política não me meto» (Lembro-me, há anos, quando se falava do “Evangelho” do Saramago, alguém ter respondido «essas coisas não leio porque não sou religioso»…)

O pior, como dizia um amigo meu, é que são esses que um dia vão governar este país…

Bjs