Direito à não existência dos escândalos do PS

É óbvio que estamos em Portugal e a mentira faz parte da ementa política, e mesmo os ministros, deputados de vários partidos que sejam aldrúbias, como se dizia nos Olivais, podem ficar descansados que o tempo tratará de transformar a mentira numa questão de direito à não existência, como muitos fazem em relação às redes…

Uma das coisas mais divertidas da política portuguesa é a capacidade que o Partido Socialista tem de desviar as atenções de temas incómodos. Nem vale a pena falar do tema mais sério, os incêndios onde morreram mais de 100 pessoas, mas podemos ir pelo assalto ao paiol de Tancos, ao acidente fatal com o carro do antigo ministro da Administração Interna, aos fechos das maternidades e das urgências em geral, às greves dos professores que fazem com que os alunos mais pobres fiquem mais pobres, de conhecimento, é certo, às nacionalizações/privatizações da TAP, às mentiras de secretários de Estado e ministros, acabando no inenarrável episódio do SIS e do computador do adjunto do Ministério das Infraestruturas.

Ah! Isto para não falar da continuidade no cargo de ministro do ex-aprendiz de animal feroz, e das consequentes guerras entre o primeiro-ministro e o Presidente da República, embora aqui Marcelo Rebelo de Sousa tenha recuperado os seus heterónimos e dispare em direto, quando dá a cara, ou em diferido nas outras ocasiões. Marcelo faz lembrar aqueles bonecos que levavam um empurrão e caíam para trás, mas, devido a uma mola, voltavam ao lugar. É um espetáculo, parafraseando Fernando Mendes.

Voltando à estrada, o PS aproveita como ninguém a boleia dos comentadores ditos mais sérios, que se queixam que as televisões só querem fait divers, como o caso do SIS, em vez de falarem dos problemas sérios como o crescimento económico, a falta de habitação para a classe média e para os mais pobres, o pré-colapso, esperemos que não, do SNS, de que sou fã, a desgraça da Educação, a confusão dos transportes públicos, com os caminhos-de-ferro à cabeça, ou será a TAP?, a construção do novo aeroporto, ou mesmo voltando à CP, à bizarra opção pela bitola ibérica nos caminhos de ferro, que vai fazer com que os nossos comboios só possam andar em Portugal.

Tudo isso é verdade, e podemos acrescentar muito mais assuntos, como seja o caso do desinvestimento nas universidades, na agricultura e por aí fora. Todos queremos que sejam discutidos os temas realmente importantes, e estou à vontade pois já abomino a história do SIS e companhia, mas não podemos à conta desse factos esconder as trapalhadas, algumas de índole moral, de alguns dos rapazes e raparigas da órbita governamental.

É ou não verdade que Boris Johnson foi obrigado a demitir-se por ter mentido, em relação às festas em que esteve durante o período da covid? Isso fez com que o Reino Unido ficasse prejudicado na sua economia? Fez com que as pessoas não tivessem tido acesso aos cuidados de saúde por causa das festas? Não, ele foi demitido por uma questão moral, por ter mentido.

É óbvio que estamos em Portugal e a mentira faz parte da ementa política, e mesmo os ministros, deputados de vários partidos que sejam aldrúbias, como se dizia nos Olivais, podem ficar descansados que o tempo tratará de transformar a mentira numa questão de direito à não existência, como muitos fazem em relação às redes sociais.

Repito, percebo que o que interessa discutir são as grandes questões que possam contribuir para o avanço do país – os políticos deviam focar-se nisso – mas então o que devemos fazer com os aldrúbias?

P.S. Muito tenho ouvido que um homem não faz um partido, mas olhando para o Chega sou obrigado a discordar a 100 por cento. Sempre que as primeiras e segundas ajudas entram em ação, André Ventura deve perder uns bons votos. Estou a falar, como é óbvio, das comissões parlamentares. Já outros podem mandar os ribeirinhos desta vida para as comissões que o pessoal acha graça ao arzinho de Pátio das Cantigas. A política é mesmo engraçada.

vitor.rainho@sol.pt