Bordallo II é um artista com uma enorme coragem, pois o seu protesto no palco-altar da Jornada Mundial da Juventude (JMJ) revela não recear ser ‘cancelado’ pelos organismos públicos que lhe pagaram, por ajuste direto, 3, 4 milhões de euros nos últimos três anos, segundo o Página Um, um site de informação. O protesto do artista, que estendeu no palco-altar o «tapete da vergonha» com notas de 500 euros, revela que não tem medo, nem vergonha. A lata do artista é digna, pois quem diz que «um investimento deste tamanho [na JMJ] deveria ser feito naquilo que é a estrutura de uma sociedade que tem de melhorar muito. Na educação, na saúde, na segurança, mesmo nas questões climáticas, na cultura, por exemplo», e nunca decidiu dar parte dos seus ganhos por ajuste direto aos mais necessitados ou em campanhas de sensibilização para as questões climáticas tem uma moral infindável. Estamos a falar de 3, 4 milhões de euros, mas o artista deve ter-se esquecido disso. A JMJ, que teve um investimento de 40 milhões de euros, vai deixar um legado fantástico na zona do Tejo/Trancão, mas para o artista o que é escandaloso é gastar-se 40 milhões de euros num projeto que será uma mais valia para o futuro, além de que esse mesmo investimento será largamente recuperado. Já agora, quanto dinheiro já gastou Portugal em campanhas promocionais do país? Quantos jornalistas estrangeiros não foram convidados para conhecer as delícias portuguesas, tendo-se gasto milhões em diversas campanhas promocionais, entre as quais a Allgarve, por exemplo? Foram muitos milhões e poucos se queixaram, mas como este evento é organizado pela Igreja católica, logo saltam as virgens ofendidas, quando o retorno será brutal.
Sou batizado, mas não sou praticante, e só entrei em igrejas nos últimos anos para ir a funerais e a casamentos, mas se 70% da população portuguesa se confessa católica qual o problema do investimento? Dizer-se que este investimento podia ser usado para combater desigualdades sociais é de uma hipocrisia total. A JMJ trouxe milhões de euros à economia portuguesa e é com essa riqueza que se pode apostar e investir nos mais necessitados. Ainda a propósito do protesto de Bordalo II foi penoso ver o presidente da Câmara de Lisboa portar-se como o Menino Tonecas ao estender o seu tapete a dar as boas vindas ao evento. Carlos Moedas, não duvido, é um homem que vai deixar obra, mas estes comportamentos à Menino Tonecas são completamente dispensáveis. Haja coragem e frontalidade para enfrentar a falta de vergonha de alguns que fazem pela vida, é certo, mas que não têm moral para falar em gastos supérfluos.
P. S. 1 Os abusos sexuais da Igreja foram ‘puxados’ até à exaustão. Percebo que a oportunidade é excelente para se falar no assunto – o Papa foi muito assertivo, mas a JMJ é muito mais do que isso. São largos milhares de jovens a conviverem e partilharem os ideais em que acreditam, que não são seguramente os abusos sexuais.
P. S. 2 A Seleção Nacional feminina teve uma prestação muito digna no Mundial de Futebol. Bateu-se de igual para igual com as duas melhores seleções do planeta e ficou a um golo de passar à fase seguinte. Parabéns às Navegadoras, apesar de não ser adepto de futebol feminino, pois não consigo entusiasmar-me com a qualidade do futebol jogado. O mesmo se passa com o basquetebol, pois sigo atentamente a NBA, mas não encontro qualquer gozo na liga americana feminina. E não tem nada a ver com machismos ou outros ismos. Gosto mais de voleibol feminino do que do masculino. Voltando ao futebol, não tinha a mínima noção que uma equipa masculina de sub15-australiana conseguiria bater a seleção sénior feminina do Brasil. Mas aconteceu agora.
P. S. 3 Se havia dúvidas que o ministro da Saúde quer concorrer, outra vez, à Câmara do Porto as mesmas ficaram dissipadas. Pizarro foi o primeiro a assinar a candidatura de Pinto da Costa a um novo mandato à frente do FC Porto. Se isto não é já pré-campanha…
vitor.rainho@nascerdosol.pt