‘Morte aos ricos e aos senhorios’

É lamentável que Costa e Marcelo não tenham condenado a linguagem de ódio nas manifestações.

Se procurarmos afincadamente talvez ainda seja possível encontrar nalgum mural perdido da capital as palavras de ordem contra António Barreto, o homem que pôs fim aos desvarios da Reforma Agrária, que é como quem diz, da ocupação selvagem de terrenos. Barreto, um dos grandes pensadores deste país, ficou para sempre ligado a essa medida, em nome da democracia e da liberdade.

Vem esta conversa a propósito das loucuras cometidas por alguns, poucos, é certo, manifestantes que protestaram contra a falta de habitação e contra as alterações climáticas. Como já não há muitos Antónios Barretos na política, foi com alguma indignação que vi tanto o primeiro-ministro como o Presidente da República minimizarem alguns dos cartazes presentes na manifestação do passado sábado, bem como algumas atitudes dos meninos anarquistas, bem vistos pela esquerda e a direita, são uma espécie de bibelozinhos, nas suas patéticas ações de rua. Quando numa manifestação há cartazes a dizer ‘Morte aos Ricos’ e vamos ‘Enterrar os Senhorios com Combustíveis Fósseis’ e os dois principais rostos da democracia nada dizem, é sinal de que caminhamos para o abismo. Que os comentadores presidenciais, e não só, nada digam, até se entende, mas o primeiro-ministro e o Presidente da República nada fazem ou dizem sobre o incitamento à violência?

Sabemos que são uma minoria, mas são uma minoria que quer impor as suas ideias às maiorias e isso não pode ser permitido. É verdade que há um grande problema de habitação, sei-o muito bem até por razões familiares, mas é matando os ricos que se resolve o problema? Todos sabemos como se resolveu o problema da habitação na antiga União Soviética, ou agora na Venezuela, só para citar dois dos regimes tão apreciados por alguns dos manifestantes. Se Barreto travou a Reforma Agrária, cabe aos democratas acabar com o ódio de pessoas que querem, à força, impor um regime socialista, onde a propriedade privada seja do Estado, e a liberdade seja ditada por um livro vermelho escrito por essa rapaziada.

Curiosamente, os dois principais partidos que dão guarida a estes protestos, o PCP e o BE, têm os seus telhados de vidro, quer seja com o caso da Vivenda Aleluia, casa que o PCP mandou destruir em Aveiro para construir um prédio para vender de uma forma capitalista, quer com o célebre caso Robles, o vereador do Bloco, que afinal se dedicava à especulação imobiliária.

Em pleno século XXI não consigo perceber como alguém grita ‘Morte aos Ricos’, em vez de ‘Morte aos Pobres’, pois o que devemos é acabar com os pobres, permitindo que estes tenham uma vida melhor. Nem o fim do Muro de Berlim fez esta rapaziada ter algum juízo. Já os manifestantes ambientalistas, que defendem coisas aberrantes, não sabem que Portugal está a ser dos melhores alunos no combate às alterações climáticas? Não sabem que não se põe fim às energias fósseis de um momento para o outro – além de que ainda não se sabe se algum dia vão ‘poder’ desaparecer por completo. Cortarem estradas e atingirem ministros com tinta não é seguramente o melhor cartão de visita, mas enquanto não forem multados ou obrigados a fazerem trabalho comunitário hão de continuar a fazer das suas, impedindo as pessoas de fazerem a sua vida normal, como seja ir a uma consulta de urgência ou levar os filhos à escola.

P. S. – Nada disto implica que não se condene as agressões de que foram alvo os manifestantes.