Orlando Costa: “Estou de volta e pronto para tudo!”

Acabou a aventura de Orlando Costa como seleccionador dos Barbados. Segue-se o sonho da I Liga…

Nem no Paraíso a vida é perfeita e Orlando Costa, o português que foi seleccionador de Barbados, o mais pequeno de todos os países das Caraíbas, acabou por regressar a casa deixando para trás o seu quotidiano de mar de coral e de palmeiras onde, por mais adubo se lhe ponha, parece que o futebol não medra. Há uns meses estivemos em Bridgeport para uma grande reportagem com o único português a ocupar o cargo de seleccionador de uma equipa daquela parte do universo e percebemos claramente que Barbados não é, e provavelmente nunca será, um país de futebol. A paixão do povo é o críquete e arranjar jogadores para treinar a um nível competitivo que seja suficiente no mínimo para se bater contra as suas congéneres mais frágeis na enorme panóplia de ilhas que forma a imensidão das Antilhas não é possível dentro do espectro nacional. Orlando Costa precisou de fazer um trabalho longo e aturado sobre os muitos naturais de Barbados que estavam a jogar em campeonatos com maior bagagem, neste caso nos Estados Unidos, no_Canadá ou nas divisões inferiores de Inglaterra. Com essa pesquisa conseguiu trazer para a selecção uma série de jogadores relativamente interessantes e obteve alguns resultados e exibições que permitiram aos dirigentes locais sonharem com a subida na escala da Liga das Nações da CONCACAF.

«Já não havia muito mais a fazer», diz o Orlando, já aterrado em Portugal, à procura de novos desafios. Não que puxem muito mais por ele que eu bem pude assistir ao esforço que ele fazia para que, todas as quartas-feiras à noite, conseguisse juntar na academia da Federação de Futebol de Barbados um grupo mínimo de possíveis seleccionáveis quando, depois, lhe apareciam meia-dúzia de gatos pingados, sem grande vontade de se esforçarem por aí além. Dava-se, por vezes, o caso de não comparecerem sequer jogadores suficientes para fazer duas equipas para um treino de conjunto. Outras ficavam à míngua de um guarda-redes. Enfim, era preciso uma paciência de Job e há que acrescentar que o Orlando foi tendo essa paciência e  até conseguiu, por exemplo, dois empates consecutivos e históricos frente a Granada (1-1 e 2-2), uma selecção que está bem mais à frente no ranking da FIFA.

E agora?

«O meu sonho é chegar um dia a treinador de uma equipa da I Liga e acho que tenho competências para isso», afirma o Orlando. Aos 46 anos, com a licença Tipo A da UEFA, pode dar largas à sua ambição. O céu é o limite. Talvez tenha ficado um pouco esquecido aqui no meio do futebol português enquanto emigrou para as Caraíbas, mas aproveitou o entretanto para perceber novas realidades e aceitar com mais benevolência determinadas contrariedades, ele  que é, segundo me confessou, muito rígido na sua exigência profissional. «Neste momento vou conversar com pessoas, ter reuniões, ver que tipo de portas se podem abrir. Trabalhar em Portugal sempre foi o meu grande desejo e acho-me com traquejo para assumir uma equipa da II_Liga ou mesmo da I. Podia ter continuado em Barbados, mas tenho ambições maiores e não me contento em ficar estagnado que era o que estava a acontecer».

Como técnico principal, Orlando Costa orientou o Merelinense, o Tirsense e a Oliveirense. Durante muitos anos foi adjunto daquele que considera o seu mentor, Nelo Vingada, e viveu longe, por vezes mesmo muito longe: FC Seul, da Coreia do Sul, Dalian Shide, da China, por exemplo. Esteve com Nelo Vingada na Académica, no Vitória de Guimarães e no Moreirense, pelo que a I_Liga não lhe é absolutamente estranha. Também foi adjunto de um daqueles velhos mestres ao qual se encontra fortemente agradecido pela sua evolução como técnico: o professor Neca. Isto para dizer que tem vindo a somar conhecimentos que lhe permitam ter as ferramentas necessárias para se lançar agora a solo numa aventura mais caseira mas, obviamente, mais exigente do que a que encontrou no total amadorismo do futebol de Barbados.

As cinco últimas jornadas de Barbados na Liga das Nações da CONCACAF_(mutatis mutandis, a Liga das Nações da UEFA da Confederação da América do Norte, Central e Caraíbas) valeram cinco derrotas e nenhuma delas verdadeiramente inesperada: Nicarágua, fora (1-5); República Dominicana, casa (0-5); República Dominicana, fora (2-5); Nicarágua, casa (0-4); Montserrat, fora (2-4). É natural que os responsáveis pela federação pretendessem mais, mas eu que estive lá e percebi a realidade do futebol de Barbados, não vejo que tivesse sido possível fazer muito melhor. Era altura certa para o adeus e o Orlando Costa, homem realista e ambicioso, também queria mais do que aquilo que lhe estavam a dar. O divórcio  foi natural. «Guardo para mim uma frase do basquetebolista Michael Jordan: ‘Ao longo da carreira  nunca procurei o mais cómodo mas o mais conveniente para o meu crescimento como jogador!’. Penso o mesmo como treinador, tenho o quarto nível,  não fui jogador top e não estou ligado ao sistema, mas já ando nisto há 27 anos. Não tenho qualquer oferta sobre a mesa. Estou pronto. Tanto pode acontecer aparecer algo aqui, mas também pode surgir algo de sítios onde possa crescer mais ainda, como um clube do Chipre ou da Lituânia, sei lá, desde que seja para lutar por títulos porque é disso que preciso!». Ei-lo de volta. O Paraíso ficou para trás. Trabalhar é preciso!

afonso.melo@nascerdosol.pt