História verídica. Como todas as histórias gostariam de sê-lo, esta é. Descia eu tranquilamente a rua quase ao chegar à Praça Grande, que tem nome muy antigo, mas antes chamara-se assim, quando quase me atropelam dois rapazitos. Pequenos ainda, na casa dos seis ou oito anos, loirinhos. Poderiam ser negros ou morenos, mas como a história é de facto real, ficam como são, loirinhos. Às suas costas as mochilas escolares em tons garridos e dizeres anglófonos, seguindo ligeiros dois metros diante de mim.
Sentada na orla do passeio, uma jovem cigana vestida de cinzento sombrio, curvada sobre um bebé nos braços enrolado, não deveria ter seis meses. A seu lado, silenciosos, uns montinhos de meia dúzia de fraldas limpas jaziam no chão.
Nem repararia nela porque nos habituamos a evitar fazê-lo, não fossem os miúdos à minha frente pararem, estendendo-lhe nas mãos um embrulho de Natal, envolto em papel verde e rubro, coroado por um planturoso laço dourado: uma prenda, que parecia chegada de debaixo da Natalícia árvore. Não o era, porque o guizo do Rodolfo de nariz encarnado, só soará nos céus daqui a dias e porque de uma loja, eu com ele, os vira sair sorrindo.
A mulher ficou observando o pacote, sem saber se podia tocar-lhe, sem saber se seria acusada de alguma coisa, caso dele se apropriasse. As crianças divertidas, em perfeito português explicaram que sim, era para ela, ou melhor para o bebé dela. Aceitou pousando-o no solo, ao lado das fraldas. De espantada e medrosa que ficara, tão pouco a sua cara expressou qualquer afeto. Quase nem agradeceu. Isentos a isso, na direção oposta que vinham, subindo se afastaram os catraios, em pulinhos revelando a alegria pela bela ideia de que viveram.
De longe presenciei, e continuei, curioso com o desfecho. Iria ela abrir o embrulho, ou o daria a alguém da sua etnia, por respeito por receio? Demoraram poucos minutos, para que desconfiada de novo mirasse a prenda. Agarrou-a finalmente, sacudindo-a perto da orelha direita. Aproximou-a do nariz, cheirando-a, repondo-a onde estava perto das fraldas. Fui-me acercando passo a passo, como um caçador furtivo, sem olhar a presa.
A cigana balbuciava algumas palavras com o bebé, e repentinamente agarrou a prenda de Natal, rasgando ao vento o papel. Deu à luz um airoso ursinho de peluche, de um luzidio castanho-dourado, elegante e feliz. Abanando mostrou-o à criança, que dado a baixa idade nem mugia nem tugia, apesar do urso ser da sua envergadura. Os lábios da mãe esquissaram um tímido contentamento, tanto que guardou o bichinho por cima do bebé, como um gato mimado se aninharia no colo dos seus donos.
Nesse momento, sem ela dar conta estava eu próximo. Pedi-lhe de telemóvel em punho, se poderia tirar-lhe uma fotografia, dela, do bebé e do peluche. Como esperava recusou, porque o seu pai não o permitia, disse. Como bom jornalista, antes de lhe perguntar já a tinha fotografado, mas fingi respeitar a razão apresentada. Má atitude talvez, mas de bom jornalista.
Surpreendendo-me, por cima do meu ombro um velho homem de barba branca exalava um bafo a álcool, questionando-me ao que vinha, se eu era turista, se procurava a Sé. Despachei-o gentilmente. Apartado, perguntei se era o seu pai, respondeu que não. Aquela que chegava agora é que sim, era a sua mãe. A senhora, visivelmente cansada, sentou-se na berma ao lado do netinho, saudando-me. E um dinheiro para as fraldas do bebé? perguntou. Dei-lhes dois euros e segui caminho.
Desembocando na antiga Praça Grande, deparei-me com o barbudo, esperava-me. Sendo um dos meus defeitos, nunca recusar um encontro, fitei-lhe os olhos. De perto disparou “aquela gente não precisa, nem de urso, nem de dinheiro para fraldas. Têm todos o subsídio de rendimento.” E eu a pensar, que ele também era cigano. Talvez o fosse de outro género. Retorqui que era Natal, que nunca há subsídios, nem pensões nem ordenados que se substituam ao Natal, ao espírito de Natal. Assim as pessoas o queiram viver, como os miúdos ao início desta breve história. Ele absorto sorriu, deixando escapar entre a condensação da frase no frio e o fumo das castanhas assadas ali ao lado: “sim é Natal…”
Como disse, aconteceu-me há dias, na rua de uma das nossas cidades. E quis partilhar convosco, porque todas as vossas ideias, mesmo as que possam parecer irrisórias, simples, fugazes, são todas elas boas nestes dias de Natal. Nem que seja somente, desejar um Feliz Natal a alguém desconhecido.
Mas pode ser sempre um pouquinho mais, experimentem.