Mário Soares era uma personalidade que adorava a vida e tinha prazer lúdico da política. Uma e outra eram indissociáveis nunca as carregando às costas.
Usufruía por isso a natureza, tendo na sua casa de Nafarros um jardim envolvente, que o seu amigo Ribeiro Teles projetou, tal como projetou outro nas varandas circundantes do apartamento/biblioteca que tinha em Lisboa.
Sentia-se um ambiente de proximidade muito apaziguador quando o ouvíamos falar sobre as árvores e as plantas da sua casa em Nafarros ou percorríamos uma praia deserta à beira-mar.
Era uma personalidade serena que depois do jantar ficava a conversar na sala de estar em tertúlias que promovia, suscitando temas sobre variados assuntos.
Quando não tinha convivas telefonava às mais diferentes personalidades para apurar como ‘é que isso vai’ e ‘isso’ podia abranger todos os domínios, e claro a política.
Corajoso, assumia-se frontal e inteiro sobrepondo a política à amizade, distinguindo-as, mas nunca rompendo com os amigos e quando os factos levavam a afastamentos, refazia-os.
Essa coragem e uma invulgar cultura aliadas a uma formação educativa sólida, que o seu pai tinha por necessária como pedagogo que era, reforçaram-lhe as convicções.
A atenção paterna facultou ao jovem Mário Soares, no colégio Moderno, o acompanhamento de intelectuais de referência como Agostinho da Silva.
Muito jovem passou a militar no PCP, partido político que na clandestinidade protagonizava a principal oposição ao regime ditatorial.
Para se entender o seu percurso político é útil ter-se presente que metade da sua vida foi vivida sob a ditadura e dois terços em bipolaridade mundial com a oposição dos regimes da ex-URSS e dos EUA.
Rompendo cedo com o PCP e assumindo-se socialista democrático, promoveu a criação da ASP (Associação Socialista), extinta com a criação do PS em 19 de junho de 1973, com os votos contra de alguns dos seus camaradas, entre eles a incansável e invulgar companheira que o acompanhou durante 68 anos, Maria Barroso, com a liberdade de opinião logo presente.
As doze prisões que sofreu sob o regime ditatorial para além da deportação para São Tomé e Príncipe e o exílio em Paris testemunham a luta persistente que travou pela democracia.
As prisões não quebraram a determinação, já sob o período subsequente à Revolução de Abril e nunca cedeu à tentativa de se instaurar em Portugal um regime autocrático de sinal contrário.
Colocou-se à cabeça da luta contra essa possibilidade, promovendo ações que marcaram a História recente, como nas manifestações de junho de 1975, na Fonte Luminosa até ao papel que teve em 25 de Novembro de 1975, doze dias depois do cerco à Assembleia da República.
Contribuiu relevantemente para a aprovação da Constituição da República.
Sob o novo regime constitucional foi primeiro-ministro no 1.º, 2.º e 9.º governos, os primeiros consolidando a democracia e o último conduzindo à entrada de Portugal na atual UE e mais tarde Presidente da República.
Nunca se vergou e porque em democracia o que conta é a vontade popular, não resistiu a uma terceira candidatura a Presidente da República de que não saiu vencedor. Tinha 80 anos!
O comboio que o transportou de Paris, onde se encontrava exilado denominou-se ‘Comboio da Liberdade’.
Mário Soares que me deu a honra de ser seu próximo, foi sempre um lutador com princípios e valores contra regimes opressores, contribuindo muito para o direito de sermos livres.
Com ele a liberdade não morreu exilada.
Ex-colaborador de Mário Soares