Um temporal na banheira

Portugal é um país tão abençoado, apesar de ter cá os portugueses, que quando umas árvores caem devido à velocidade do vento e uns barquitos artesanais se afundam até parece que o fim do mundo está próximo.

O histerismo das redes sociais foi, há muito, transposto para o dia-a-dia e torna-se difícil ter alguma sanidade mental com tanto barulho à volta. Se na semana passada era o caso da empresa familiar de Luís Montenegro que abriu, e bem, todos os telejornais, rapidamente se passou para o mau tempo, fazendo-se intermináveis diretos. Percebo que um país que não está muito familiarizado com tempestades dê muita importância aos Martinhos da vida. Mas uma coisa é dar conta que há estradas cortadas, devido à queda de árvores ou de inundações, e isso é serviço público, outra é ir para o Ribatejo questionar os habitantes locais se não estão preocupados que os rios transbordem e ‘fertilizem’ as suas terras. Vi várias reportagens em que jovens jornalistas insistiam e insistiam se as pessoas não estavam preocupadas com a subida do nível das águas, e as pessoas repetiam até à exaustão que é o melhor que pode acontecer às lezírias, pois se os rios não ‘deitarem’ por fora as terras não ficam tão férteis. Mas nada disso servia, pois os repórteres queriam ouvir uma choradeira. Que raios, noticiar histórias felizes também dá audiências, suponho…

Outro dado muito curioso é que poucos questionaram as famosas alterações climáticas – e não sou negacionista, para que conste – atendendo a que o país vai ter água com fartura nos próximos longos meses. A natureza foi tão generosa com Portugal que até fez chover onde era mesmo preciso: no Algarve e no Alentejo.

 Obviamente, logo surgiram notícias que as barragens estavam a ficar no limite e que haveria inundações nas proximidades das mesmas. Digamos que a Natureza é ‘presa’ quando faz chover e é ‘presa’ quando não faz chover. Vivemos tempos em que só o futebol é que põe fim à novela do dia, pois umas horas antes de começar o jogo de Portugal na Dinamarca, vários canais já estavam com os seus comentadores futebolísticos, esquecendo-se temporariamente das cheias. Chega a ser caricato vermos diretos com as câmaras a apontarem para um barquito de recreio que ‘se está a afundar’, quando nos lembramos e comparamos com os ‘vendavais’, ciclones, tufões e demais designações para grandes tempestades do Pacífico ou até do Índico. Se compararmos o nosso Martinho com o Idai, por exemplo, percebemos como vivemos numa terra abençoada.

Para quem pense que o_Martinho me passou ao lado, não é verdade, mas essas contas não são chamadas para aqui._O que digo é que damos importância a coisas que não têm assim tanta importância e esquecemo-nos de ligar a assuntos que podem mudar as nossas vidas. O que não é o caso de um temporal como o Martinho…

 Nos próximos tempos seremos obrigados a acordar para uma realidade que fingimos não ver, mas que vamos ser obrigados a enfrentar. A Europa irá apostar forte e feio em Defesa? E quem irá controlar esses investimentos? Para mim, seriam os nórdicos, mas isso pouco importa. O que me faz confusão, eu que abomino Putin, é que dizemos que será o czar russo que irá invadir os países que fazem fronteira com a Ucrânia, se esta ceder – e estou no lado daqueles que acreditam que sim –, mas até agora só ouvimos Donald Trump dizer que quer a Gronelândia, o Canadá, o Panamá e por aí fora, e se necessário irá invadir militarmente quem se lhe opuser. Será que no futuro a Europa terá mesmo que valer por si só, independentemente de o ‘inimigo’ se chamar Putin ou Trump? Trump foi muito bem definido por Carlos Guimarães Pinto: «Enquanto a maioria das pessoas vê as palavras como uma forma de transmitir informação, Trump vê as palavras como uma forma de gerar uma ação», e é essa ação que desconhecemos que é intrigante.

Telegramas

Lili e Pedro

Quando me mandaram, na segunda-feira, a troca de palavras entre os dois, pensei que era uma aldrabice pegada, como se dizia antigamente, e que agora se diz fake news. Mas não. É mesmo verdade e Pedro Nuno_Santos respondeu a Lili Caneças que o acusou de estar sempre a ralhar com todos. Calculo o que terão pensado os costistas mais fervorosos – e mesmo Alexandra Leitão deve ter tido uma apoplexia… Eleições a quanto obrigas.

Fraldas na televisão

É um fenómeno dos tempos que vivemos, em que as televisões estão a  recrutar jovens comentadoras à saída das maternidades… Sacanagem à parte, novas ou velhas, há cada vez mais, e não é só nas televisões, a cumprirem todos os requisitos de uma máxima universal: «Não há nada pior do que um burro com ideias próprias».

Europa cega

Quando na Síria se assiste a uma carnificina contra cristãos e outras minorias religiosas, a União Europeia decide ajudar os fundamentalistas que estão no poder com mais uns bons milhões de euros. Os burocratas de Bruxelas não aprendem nada com o passado? Lamentável.

vitor.rainho@nascerdosol.pt