Donald Trump prometeu que desclassificaria os documentos relativos ao assassinato de JFK e cumpriu. Nos arquivos constam mais de 1000 páginas interessantes, mas pouco bombásticas. Contudo, um memorando sobre Gary Underhill volta a colocara CIA sob suspeita, mesmo que a BBC tenha desvalorizado a “teoria”.
Os primeiros dois meses da segunda passagem de Donald Trump pela Casa Branca têm sido frenéticos. Uma enxurrada de ordens executivas, a maior desde Franklin D. Roosevelt e uma abordagem controversa ao fim do conflito entre a Rússia e a Ucrânia têm pautado a análise dos primeiros dias do mandato, mas Trump comprometera-se, ainda na campanha, a desclassificar os documentos relativos ao assassinato do Presidente John F. Kennedy. E cumpriu. No passado dia 17, o Presidente americano anunciou que mais de 1000 papéis estão agora abertos ao público, tendo dito aos jornalistas que «têm muito para ler». Para além dos arquivos referentes a um dos eventos mais marcantes da política americana do século passado, o 47.º Presidente ordenou também a divulgação dos documentos que tratam de dois outros assassinatos marcantes da década de 1960 – o de Robert F. Kennedy, irmão de JFK, e o de Martin Luther King. Entre tanta informação, não existe nada de novo que seja extremamente conclusivo, mas um documento específico tem causado polémica e parece atribuir à CIA a responsabilidade do assassinato.
O assassinato
O dia 22 de novembro de 1963 ficará marcado como um dos dias mais controversos da história dos Estados Unidos. John F. Kennedy deslocara-se ao Texas, um Estado fundamental para a sua eventual reeleição no ano seguinte e normalmente hostil aos democratas, por motivos de angariação de fundos para a campanha e fez-se acompanhar pela sua esposa, Jackie, pelo vice-Presidente, Lyndon B. Johnson, e restante comitiva.
Na fatídica sexta-feira, quando descia a Elm Street a bordo do Cadillac presidencial descapotável, na famosa Dealey Plaza, foram ouvidos três disparos que alteraram o curso da história. O Presidente foi primeiro atingido no pescoço e depois, de forma fatal, na cabeça. As imagens mostram a primeira-dama em desespero, saltando para a cauda do automóvel, enquanto JFK, já sem vida, ficou caído no banco traseiro. Ficou claro para todos que a situação seria irreversível e que o Presidente havia sido assassinado. O corpo foi levado para o Hospital Naval de Bethesda, em Maryland, para ser submetido a uma autopsia obrigatória.
Johnson tomou prontamente posse como Presidente, ainda no avião, na presença de Jackie Kennedy, que se recusou a mudar o seu vestido Chanel cor-de-rosa manchado de sangue para, segundo as suas palavras, «que eles vejam o que fizeram ao Jack».
Pouco tempo depois, foi detido o suspeito assassino, de seu nome Lee Harvey Oswald. Ao revistar o alegado local dos disparos, o sexto andar do Texas School Book Depository, foram encontrados invólucros de bala e uma espingarda que pertencia a Oswald, que trabalhava no local há cerca de um mês. O que seguiu gera polémica até aos dias de hoje. Durante a detenção, Oswald disse aos jornalistas que era apenas um «bode expiatório» e, no dia 24, enquanto a sua transferência do Dallas City Hall para o estabelecimento prisional do condado estava a ser transmitida em direto, Jack Ruby disparou na sua direção, acabando por matar o alegado assassino de JFK. Ruby acabou por ser sentenciado com pena de morte por homicídio, pena que foi revertida em 1966. Acabou por falecer um ano mais tarde no hospital para onde foram também transportados, depois de alvejados, JFK e Lee Harvey Oswald.
A Comissão Warren
Como seria de esperar, após o primeiro sentimento de perda e de choque profundo, sobressai a questão que teima em não ser respondida com certeza até aos dias de hoje: quem esteve por trás da morte de John F. Kennedy? Terá sido Lee Harvey Oswald um “lobo solitário” ou fazia parte de um esquema superior? Foi Oswald o único atirador? As teorias da conspiração são incontáveis – algumas serão abordadas em seguida – e surgem novas a cada ano. À data, o sentimento generalizado era o de que teria sido uma conspiração comunista, com ligações à União Soviética, claro, – Oswald tinha saído por algum tempo para o rival dos americanos – e a Cuba. Optando pela prudência, LBJ estabeleceu a Comissão Warren, que carrega o nome do seu Presidente Earl Warren, passados sete dias do assassinato.
O relatório final da Comissão estende-se por 888 páginas, conta com 8 capítulos e 18 apêndices e pode ser consultado na íntegra online através da página: https://www.archives.gov/research/jfk/warren-commission-report/toc. Mas é logo no primeiro que são apresentadas as conclusões referentes aos cerca de 10 meses de investigação. «Esta Comissão foi criada para apurar os factos relacionados com o resumo dos acontecimentos precedentes e para analisar as questões importantes que estes suscitam», começa a conclusão. «A Comissão dedicou-se a esta tarefa e chegou a determinadas conclusões com base em todas as provas disponíveis. Não foram impostas quaisquer limitações ao inquérito da Comissão; esta efetuou a sua própria investigação e todos os organismos governamentais cumpriram plenamente a sua responsabilidade de cooperar com a Comissão na sua investigação. As presentes conclusões representam o juízo fundamentado de todos os membros da Comissão e são apresentadas após uma investigação que a convenceu de que: apurou a verdade sobre o assassinato do Presidente Kennedy, na medida em que uma busca prolongada e exaustiva o tornou possível».
«Os tiros que mataram o Presidente Kennedy e feriram o Governador Connally foram disparados da janela do sexto andar, no canto sudeste do Texas School Book Depository», começam, baseando-se em várias evidências como as seguintes: 1) «testemunhas no local do assassinato viram uma espingarda a ser disparada da janela do sexto andar do Edifício Depository, e algumas testemunhas viram uma espingarda na janela imediatamente após os disparos»; 2) «A bala quase inteira encontrada na maca do Governador Connally no Parkland Memorial Hospital e os dois fragmentos de bala encontrados no banco da frente da limusina presidencial foram disparados pela espingarda Mannlicher-Carcano de 6,5 milímetros encontrada no sexto andar do Edifício Depositário, excluindo todas as outras armas»; 3) «Os três cartuchos usados encontrados junto à janela do sexto andar, no canto sudeste do edifício, foram disparados pela mesma espingarda que disparou a bala e os fragmentos acima descritos, com exclusão de todas as outras armas»; 4) «O para-brisas da limusina presidencial foi atingido por um fragmento de bala na superfície interior do vidro, mas não foi penetrado»; 5) «A natureza dos ferimentos de bala sofridos pelo Presidente Kennedy e pelo Governador Connally e a localização do carro no momento dos disparos estabelecem que as balas foram disparadas de cima e de trás da limusina presidencial, atingindo o Presidente e o Governador da seguinte forma: 1. O Presidente Kennedy foi atingido pela primeira vez por uma bala que entrou pela parte de trás do pescoço e saiu pela parte frontal inferior do pescoço, causando um ferimento que não seria necessariamente mortal. O Presidente foi atingido uma segunda vez por uma bala que entrou na parte traseira direita da sua cabeça, causando um ferimento grave e fatal; 2. O Governador Connally foi atingido por uma bala que entrou no lado direito das suas costas e desceu pelo lado direito do seu peito, saindo abaixo do mamilo direito. A bala atravessou depois o pulso direito e entrou na coxa esquerda, onde provocou um ferimento superficial».
Mas é nas alíneas (b), (c), (d) e (e) do ponto 9, presentes nas páginas 21 e 22, que a Comissão Warren apresenta conclusões que têm sido passíveis de contestação ao longo do tempo e que, com a divulgação dos arquivos, ficam mais uma vez em dúvida. Primeiro, a Comissão liderada por Earl Warren retira a hipótese que teria sido, à partida, colocada – até, alegadamente, pelo próprio Presidente Lyndon B. Johnson – de que teria sido uma conspiração comunista: «A Comissão não encontrou provas de que Oswald estivesse envolvido com qualquer pessoa ou grupo numa conspiração para assassinar o Presidente, embora tenha investigado minuciosamente, para além de outras pistas possíveis, todas as facetas das associações, finanças e hábitos pessoais de Oswald, particularmente durante o período que se seguiu ao seu regresso da União Soviética em junho de 1962», pode ler-se na alínea (b). Na alínea (c), a Comissão prossegue da seguinte forma: «A Comissão não encontrou provas de que Oswald tenha sido contratado, persuadido ou encorajado por qualquer governo estrangeiro a assassinar o Presidente Kennedy ou que fosse agente de qualquer governo estrangeiro, embora a Comissão tenha analisado as circunstâncias que rodearam a deserção de Oswald para a União Soviética, a sua vida na União Soviética entre outubro de 1959 e junho de 1962, na medida em que pode ser reconstruída, os seus contactos conhecidos com o Comité Fair Play for Cuba e as suas visitas às embaixadas cubana e soviética na Cidade do México durante a sua viagem ao México de 26 de setembro a 3 de outubro de 1963, e os seus contactos conhecidos com a embaixada soviética nos Estados Unidos».
Após a alínea (d) reforçar que não existia ligação entre os contactos de Oswald com o Partido Comunista Americano, com o Fair Play Commitee for Cuba e com o Partido Socialista dos Trabalhadores e o assassinato, a alínea (e) concluiu algo que tem sido o tópico mais sensível e polémico ao longo destes 62 anos: o envolvimento da CIA. «Todas as provas apresentadas à Comissão demonstraram que não havia nada que apoiasse a especulação de que Oswald era um agente, empregado ou informador do FBI, da CIA ou de qualquer outra agência governamental. A Comissão investigou exaustivamente as relações de Oswald, antes do assassínio, com todas as agências do Governo dos Estados Unidos. Todos os contactos com Oswald por qualquer destas agências foram feitos no exercício regular das suas diferentes responsabilidades».
Um memorando polémico
Tal como mencionado antes, o envolvimento da CIA no assassinato de John F. Kennedy tem sido uma das teorias mais seriamente abordadas. O próprio sobrinho do 35.º Presidente americano, Robert F. Kennedy Jr., que agora tutela o Departamento de Saúde dos EUA, tem sido um dos principais impulsionadores desta versão que contraria as conclusões da Comissão Warren. «Há provas irrefutáveis de que a CIA esteve envolvida no assassínio e no seu encobrimento», disse o filho de Robert F. Kennedy, irmão de JFK que também viria a ser assassinado a 6 de junho de 1968, alegando que esta hipótese está «para além de uma dúvida razoável neste momento».
Um dos documentos expostos, que concerne o agente dos serviços secretos de informação na época da II Guerra Mundial, John Garret (Garry) Underhill, faz recair ainda mais as dúvidas sobre o envolvimento da agência de inteligência americana. O memorando, que data a 19 de julho de 1967, reproduz um artigo publicado na revista Ramparts, de esquerda, e diz o seguinte: «No dia seguinte ao assassinato, Garry Underhill saiu de Washington à pressa. Ao fim da tarde, apareceu em casa de amigos em Nova Jérsia. Estava muito agitado. Um pequeno grupo dentro da CIA era responsável pelo assassinato, confidenciou, e ele temia pela sua vida e provavelmente teria de deixar o país. Menos de seis meses depois, Underhill foi encontrado morto a tiro no seu apartamento em Washington. O médico legista declarou suicídio». O parágrafo seguinte sublinha a posição de Underhill, cujo acesso às altas cúpulas do Pentágono e da CIA era privilegiado: «Investigador e escritor de assuntos militares, era o primeiro nome de muitos dos altos responsáveis do Pentágono. Também tinha relações íntimas com vários altos funcionários da CIA – era uma das “não-pessoas” da Agência que efetuam missões especiais». Ainda neste segmento, está também presente um dado, no mínimo, «irónico»: «Em tempos, foi amigo de Samuel Cummings, da Interamco, o corretor de armas que tem entre os seus clientes a CIA e, ironicamente, a Klein’s Sporting Goods de Chicago, onde a Carcano encomendada por correio terá sido comprada por Oswald».
E há mais. «Os amigos que Underhill visitou dizem que ele estava sóbrio, mas muito abalado. Dizem que ele atribuiu o assassinato de Kennedy a um grupo da CIA que estava a desenvolver um lucrativo negócio de tráfico de armas, narcóticos e outro contrabando, e a manipular a intriga política para servir os seus próprios fins. Kennedy terá sabido que algo se passava e foi morto antes de poder denunciar o caso», diz o memorando, que continua com a história dúbia do alegado suicídio de Garry Underhill: «O veredicto de suicídio na morte de Underhills não é de modo algum convincente. O seu corpo foi encontrado por um colaborador, Asher Brynes, da New Republic. Tinha sido baleado atrás da orelha esquerda e uma pistola automática estava debaixo do seu lado esquerdo. Estranho, diz Brynes, porque Underhill era destro. Brynes pensa que a pistola estava equipada com um silenciador, e os ocupantes do edifício não se lembram de ter ouvido um tiro. Underhill estava obviamente morto há vários dias». «A história arrepiante de Garry Underhill não é implausível», conclui o artigo, antes de apresentar as notas biográficas de Underhill. «Como aparelho de espionagem, a CIA está repleta de grupos autónomos que operam sem qualquer controlo central real». O documento de 7 páginas está disponível em PDF online através do link: https://www.archives.gov/files/research/jfk/releases/104-10170-10145.pdf.
Ainda assim, a BBC desvaloriza o conteúdo do documento. «Apenas algumas frases de uma página do memorando foram retiradas do texto na última publicação», escreveu a estação americana numa peça assinada por Jake Horton, Shayan Sardarizadeh e Mike Wendling. «E, crucialmente, a teoria baseia-se num relato em segunda mão publicado após a morte de Underhill e não inclui provas concretas», continuam concluindo que, «no entanto, esta história foi apenas uma das várias teorias sem fundamento que circularam após a divulgação dos ficheiros».
Assim, a desclassificação dos documentos relativos ao mais relevante assassinato do século passado é importante e oferece novas luzes ao mesmo tempo que alimenta mais teorias da conspiração. Para quem se interessa pela história, e em particular por este caso tão controverso, estes mais de 1000 documentos são uma fonte interessante de informação e leitura, mesmo que não aportem grandes novidades sobre quem realmente esteve por trás do icónico Presidente John F. Kennedy.