Segundo uma sondagem da Gallup, 81% dos americanos acreditam que o comércio externo representa uma oportunidade de crescimento económico. Apenas 14% o encara como uma ameaça à economia. Assim, estes são os valores mais altos e mais baixos, respetivamente, dos últimos 30 anos, o que não impediu Donald Trump de apresentar com pompa e circunstância o seu pacote tarifário, cujos cálculos, por sinal, são inacreditáveis. Para apurar o nível de tarifas impostas aos produtos americanos, a equipa de Trump dividiu o défice comercial que sustém com cada país pelas exportações destes últimos para os Estados Unidos.
Com as novas tarifas «recíprocas», a tarifa média ponderada global, segundo uma estimativa da EvercoreISI, escalou para os 29%. A título de contexto, com a implementação do Smoot-Hawley Act em 1930 – criado também com base na ilusão de que o protecionismo seria a resposta a um período económico decadente -, este indicador ficou-se pelos 20%. Resumindo, a partir de 2 de abril de 2025, os EUA têm a maior carga tarifária do seu último século.
É sabido que Trump olha para o Presidente McKinley com alguma reverência. No discurso de tomada de posse disse que este último, através das tarifas, tornou o país «muito rico». Bem, no curto (muito curto) prazo, sim, mas os efeitos negativos das taxas alfandegárias rapidamente se fizeram sentir e os Republicanos acabaram por perder 93 assentos na Câmara dos Representantes, oferecendo de bandeja uma maioria confortável aos democratas. McKinley apresentava o seu grandioso plano económico sob o slogan “Prosperidade em casa, prestígio no estrangeiro”; Trump, seguindo a mesma estratégia, está a ameaçar os consumidores nacionais e a passar uma imagem desprestigiante para o para o mundo, principalmente para os aliados históricos. E importa ainda notar que na década de 1890 os Estados Unidos ainda ambicionavam tornar-se numa superpotência industrial. Hoje, a economia americana é a maior do mundo e está orientada, naturalmente, para o setor dos serviços, numa conjuntura em que a interdependência económica global é incomparavelmente superior.
«Se a imposição de tarifas e barreiras protetoras tornasse as nações pobres», disse Trump na sua «declaração de independência económica», «então todos os países da Terra estariam a correr para eliminar essas políticas». Bem, foi precisamente isso que a Ordem do pós-II Guerra Mundial, que assentou fortemente no multilateralismo (destaque para a criação do GATT, agora OMC), se propôs a fazer, um processo que foi aprofundado no seguimento da queda da União Soviética. E sugerir que as tarifas tornam os países mais ricos é ignorar os dados e a história económica. A correlação entre a percentagem de tarifas e o PIB per capita mostra-se negativa – quanto mais altas as tarifas, menor o PIB per capita – com alguns outliers, claro, para os quais outros fatores e especificidades são importantes para o cálculo. Trump está a descartar décadas de esforço, focadas na diminuição das barreiras ao comércio nocivas que minam o desenvolvimento, a inovação, a prosperidade e, em última instância, a paz.
Se a Ordem Internacional Liberal já rastejava, ferida de morte, na quarta-feira foi definitivamente enterrada. Curiosa – ou trágica – mente, não foi a China, nem tampouco a Rússia, que a subverteu, como várias previsões apontavam; foi o seu principal arquiteto, e com a ironia adicional de ter chamado “Liberation Day” ao funeral. Há coisas que não se inventam.