Não me recordo na política portuguesa de alguém que provocasse tanto ódio no comum dos mortais. Não sei se é exagerado – é capaz de ser -, mas parece-me que nem Salazar provocava tanto ódio nos antifascistas, como Cunhal não incomodava todos aqueles que perderam os seus bens com as nacionalizações. André Ventura é uma figura que não deixa ninguém indiferente, e a notícia de que se tinha sentido mal num comício na quarta-feira deve ter merecido a abertura de algumas garrafas de champanhe ou espumante, dependendo se falamos da esquerda caviar ou da esquerda tradicional.
Mas antes da abertura das garrafas, o que circulava nas redes sociais, e não só, é que Ventura não passa de um artista que é até capaz de fingir que está doente. Vi e ouvi muita gente a desejar a sua morte, mostrando muito o que as pessoas pensam sobre quem não está de acordo consigo. Ouvi mesmo padres a pronunciá-lo, mas é a vida. Talvez o Espírito Santo consiga trazer luz a esse pastor… Para mim, desde que ouvi a notícia, tornou-se óbvio que jamais interessaria a Ventura fazer-se de vítima. Um político que aparece de peito cheio, que gosta de fazer o papel de leão, apesar de ser benfiquista, não gosta nem quer aparecer no papel de gatinho. Isso é tão óbvio que só a cegueira contra o líder do Chega é que pode levar as pessoas a pensarem dessa forma. Na quinta-feira, de manhã, antes de vir para a redação, fui visitar a chefe de redação do meu jornal do bairro, que está rodeada da comunidade cigana, e ela estava triste: «Ó senhor Vítor, então o André Ventura nem aguenta uma campanha eleitoral? Como é que o homem podia aguentar o país? Tristeza! Sabe que eles quase todos estão em festa?», questionava-me.
Ontem à tarde, enquanto estava à volta do Papa e do conclave, e como nem tinha ligado a televisão, uma colega veio dizer-me que o Ventura tinha tido outro ‘amoque’. Aí, pelo que percebi depois, fez-se luz nalgumas figuras que nas redes sociais tinham ‘brincado’ com a doença ‘imaginária’ de André Ventura. Entretanto, fiz o que devia ter feito logo cedo, mas uma sucessão de telefonemas tinha-me impedido de fazer o óbvio: ler os jornais. E eis qual não é o meu espanto quando vejo que dos quatro diários nacionais só um falou na doença do líder do terceiro maior partido do país e que ficou hospitalizado. Que me desculpem os meus colegas – e já fiz milhares de capas de jornais, agora não tenho essa função -, mas achar que o facto de o líder do terceiro maior partido do país ter ido parar ao hospital em plena campanha eleitoral não merece uma simples breve na primeira página diz muito da classe. A notícia é determinada pela simpatia que se tem pelo político A ou B, não tanto pelo valor da mesma.
Voltando aos ganhos ou perdas de Ventura, como não sou o Merlin não posso dizer se vai ganhar ou perder com a doença. Eu acredito que vá perder, pois a maioria da rapaziada vê em Ventura o seu líder, um homem determinado e forte. Algo que não demonstrou com as suas maleitas. Por outro lado, se faltava alguma prova de que o Chega é Ventura, nada como uma doença súbita para o demonstrar. E, não conhecendo minimamente os meandros do partido, atrevo-me a dizer que os mariolões que o compõem deviam ter tido a lucidez de mandar a deputada Rita Matias para frente de combate, já que Diogo Pacheco de Amorim não deve estar para aí virado, e a rapaziada dos touros e do fado nem deve conseguir encher o Campo Pequeno. Sem Ventura, o Chega desaparece tão depressa como desaparecia o Speedy González, esta é só para os ‘velhotes’.
Telegramas
Trabalhistas para a fogueira
O primeiro-ministro Trabalhista do Reino Unido ficou na lista negra de muitos portugueses, no seu país não sei, por ter dito que quer impor regras sobre a imigração, pois não quer que o Reino Unido fique uma «ilha de estranhos». Para essas pessoas, calculo que seja necessário os cidadãos naturais de um país ficarem em minoria para terem direito a existir. Procurem um país fora da Europa que permita que os migrantes alguma vez estejam em maioria. Quando é os fundamentalistas wokistas vão perceber que é no equilíbrio que está o sucesso?
Fertagus versus CP
Nos últimos dias quem fez o percurso ferroviário entre Setúbal e o Areeiro pôde fazê-lo tranquilamente, pois viajou numa companhia privada. E não consta que façam tanta greves como os seus colegas da CP.
Hotéis com vista para o Marquês
São vários e devem estar com as suítes esgotadas, bem como os quartos com vista para o leão, no próximo sábado. Será curioso saber quantos quartos alugados não serão usados em caso de derrota do clube do cliente. Mas que vai ser uma grande festa, disso não há dúvidas.