A ‘morte’ de Ventura não será notícia

Quando foi parar ao hospital, logo se disse que estava a ‘fingir, como o tinham feito Bolsonaro e Trump’. Mesmo com a confirmação de problemas de saúde, Ventura não mereceu uma linha na primeira página de três dos principais diários nacionais. Será que se morrer terá direito ‘a capa’?

Não me recordo na política portuguesa de alguém que provocasse tanto ódio no comum dos mortais. Não sei se é exagerado – é capaz de ser -, mas parece-me que nem Salazar provocava tanto ódio nos antifascistas, como Cunhal não incomodava todos aqueles que perderam os seus bens com as nacionalizações. André Ventura é uma figura que não deixa ninguém indiferente, e a notícia de que se tinha sentido mal num comício na quarta-feira deve ter merecido a abertura de algumas garrafas de champanhe ou espumante, dependendo se falamos da esquerda caviar ou da esquerda tradicional.


Mas antes da abertura das garrafas, o que circulava nas redes sociais, e não só, é que Ventura não passa de um artista que é até capaz de fingir que está doente. Vi e ouvi muita gente a desejar a sua morte, mostrando muito o que as pessoas pensam sobre quem não está de acordo consigo. Ouvi mesmo padres a pronunciá-lo, mas é a vida. Talvez o Espírito Santo consiga trazer luz a esse pastor… Para mim, desde que ouvi a notícia, tornou-se óbvio que jamais interessaria a Ventura fazer-se de vítima. Um político que aparece de peito cheio, que gosta de fazer o papel de leão, apesar de ser benfiquista, não gosta nem quer aparecer no papel de gatinho. Isso é tão óbvio que só a cegueira contra o líder do Chega é que pode levar as pessoas a pensarem dessa forma. Na quinta-feira, de manhã, antes de vir para a redação, fui visitar a chefe de redação do meu jornal do bairro, que está rodeada da comunidade cigana, e ela estava triste: «Ó senhor Vítor, então o André Ventura nem aguenta uma campanha eleitoral? Como é que o homem podia aguentar o país? Tristeza! Sabe que eles quase todos estão em festa?», questionava-me.

Ontem à tarde, enquanto estava à volta do Papa e do conclave, e como nem tinha ligado a televisão, uma colega veio dizer-me que o Ventura tinha tido outro ‘amoque’. Aí, pelo que percebi depois, fez-se luz nalgumas figuras que nas redes sociais tinham ‘brincado’ com a doença ‘imaginária’ de André Ventura. Entretanto, fiz o que devia ter feito logo cedo, mas uma sucessão de telefonemas tinha-me impedido de fazer o óbvio: ler os jornais. E eis qual não é o meu espanto quando vejo que dos quatro diários nacionais só um falou na doença do líder do terceiro maior partido do país e que ficou hospitalizado. Que me desculpem os meus colegas – e já fiz milhares de capas de jornais, agora não tenho essa função -, mas achar que o facto de o líder do terceiro maior partido do país ter ido parar ao hospital em plena campanha eleitoral não merece uma simples breve na primeira página diz muito da classe. A notícia é determinada pela simpatia que se tem pelo político A ou B, não tanto pelo valor da mesma.

Voltando aos ganhos ou perdas de Ventura, como não sou o Merlin não posso dizer se vai ganhar ou perder com a doença. Eu acredito que vá perder, pois a maioria da rapaziada vê em Ventura o seu líder, um homem determinado e forte. Algo que não demonstrou com as suas maleitas. Por outro lado, se faltava alguma prova de que o Chega é Ventura, nada como uma doença súbita para o demonstrar. E, não conhecendo minimamente os meandros do partido, atrevo-me a dizer que os mariolões que o compõem deviam ter tido a lucidez de mandar a deputada Rita Matias para frente de combate, já que Diogo Pacheco de Amorim não deve estar para aí virado, e a rapaziada dos touros e do fado nem deve conseguir encher o Campo Pequeno. Sem Ventura, o Chega desaparece tão depressa como desaparecia o Speedy González, esta é só para os ‘velhotes’.

Telegramas

Trabalhistas para a fogueira

O primeiro-ministro Trabalhista do Reino Unido ficou na lista negra de muitos portugueses, no seu país não sei, por ter dito que quer impor regras sobre a imigração, pois não quer que o Reino Unido fique uma «ilha de estranhos». Para essas pessoas, calculo que seja necessário os cidadãos naturais de um país ficarem em minoria para terem direito a existir. Procurem um país fora da Europa que permita que os migrantes alguma vez estejam em maioria. Quando é os fundamentalistas wokistas vão perceber que é no equilíbrio que está o sucesso?

Fertagus versus CP

Nos últimos dias quem fez o percurso ferroviário entre Setúbal e o Areeiro pôde fazê-lo tranquilamente, pois viajou numa companhia privada. E não consta que façam tanta greves como os seus colegas da CP.

Hotéis com vista para o Marquês

São vários e devem estar com as suítes esgotadas, bem como os quartos com vista para o leão, no próximo sábado. Será curioso saber quantos quartos alugados não serão usados em caso de derrota do clube do cliente. Mas que vai ser uma grande festa, disso não há dúvidas.