É a imigração, estúpido!

A imigração tornou-se um dos assuntos mais importantes para os eleitores. E a postura de Keir Starmer revela isso mesmo.

O ano era 1992. Bill Clinton candidatava-se à presidência dos Estados Unidos contra o incumbente George H. W. Bush. No ano anterior, o país passara por uma recessão que foi responsável pela queda do PIB na ordem dos 1,3% e pelo aumento do desemprego que, de acordo com números da FRED, atingiu os 7,8% em junho de 1992. Por isto, e por ter plena consciência de que os americanos ‘votam com a carteira’, James Carville, um dos principais estrategas da campanha de Clinton, sublinhou a importância do vetor económico. E fê-lo com uma das frases mais icónicas da política americana recente: «It’s the economy, stupid!» (É a economia, estúpido!). Para além desta máxima, Carville destacou outros dois ingredientes para o sucesso eleitoral: «Mudança vs. Mais do mesmo» e «Não esquecer os cuidados de saúde». Bill Clinton acabou por ser eleito.
Mais de trinta anos depois, e mesmo que a economia continue a ser um dos fatores que determinam o sucesso ou o fracasso de líderes e de partidos, o tema que tem vindo a ocupar um lugar de peso no cenário político ocidental é a imigração. Na Alemanha, em fevereiro, a escassos dias das eleições legislativas, o tema foi considerado o mais importante por 42% dos inquiridos num estudo de opinião da Statista, perdendo apenas para a economia (43%). Em França, de acordo com uma sondagem da Ipsos, 43% dos eleitores consideraram a imigração o assunto mais importante na altura de votar nas últimas eleições europeias, ficando em segundo lugar, também atrás de um assunto económico, neste caso o poder de compra (45%). Nos Estados Unidos, em 2024, a tendência foi seguida. A imigração foi uma das prioridades dos eleitores, ficando, segundo uma sondagem da Gallup, acima da educação e da saúde, com 41% dos inquiridos a considerarem o tema ‘extremamente importante’ e 31% ‘muito importante’. Já no Reino Unido, a imigração ultrapassou a economia e é, segundo os dados mais recentes da YouGov (12 de maio), o tema mais importante para 50% dos eleitores britânicos.
Esta realidade é transversal à maioria dos países europeus, onde o crescimento da direita nacional-populista tem derivado principalmente deste tema. Mas o que nos tem chegado da outra margem do Canal da Mancha durante esta semana é particularmente importante. Keir Starmer apresentou à Câmara dos Comuns um documento onde se propõe a apertar o cerco aos fluxos migratórios, publicando, em catadupa, fortes declarações nas redes sociais onde acusa os conservadores de «traição» e apela ao «senso comum» (ou bom senso), essa expressão sempre associada aos chamados reacionários. Trata-se um caso paradigmático da influência que a imigração está exercer sobre os líderes do chamado centrão – os mesmos que se dedicaram a ignorar um tema de tamanha importância, criando um tabu e descredibilizando qualquer indivíduo que, por mais moderado que fosse, indicasse os riscos inerentes a uma imigração descontrolada. Alguns políticos do centro-esquerda, inclusive em Portugal, já haviam começado a adaptar o discurso nesta questão, mas esta rutura total com o mainstream por parte de Starmer, com alguns tweets que poderiam ter sido escritos por Enoch Powell – o falecido político britânico fortemente empenhado no combate à imigração – pode ser o pontapé de saída num processo de autodefesa do centro contra a galopante direita nacional-populista. Contudo, poderá ser tarde demais.
Assim, se Carville ainda estivesse no ativo, poderia acrescentar à sua receita eleitoral a máxima «É a imigração, estúpido!».