Na semana passada, três nações europeias foram chamadas às urnas. Portugal, Roménia e Polónia. Três eleições importantes, cada uma por motivos específicos e particulares de cada Estado. Mas houve um quarto ato eleitoral, na América do Sul, que foi tão importante quanto negligenciado. Vá-se lá saber porquê.
Manuel Adorni, porta-voz do governo argentino chefiado por Javier Milei, venceu as eleições locais de Buenos Aires com 30,1% dos votos, deixando para trás os peronistas e o centro-direita. Mais que uma vitória importante numa das regiões-chave do país, a eleição de Adorni é reveladora do estado de espírito dos argentinos. É um sinal de que este último ano e meio de governo do “louco” e “ultraliberal”, como é rotulado pelos detratores, foi, contrariamente às previsões da intelligentsia, competente e, como consequência, popular.
É uma demonstração de que os argentinos, sufocados por décadas de Estado que os colocou à beira do abismo, confiam no processo de desenvolvimento proporcionado pelo liberalismo. Neste curto período de Milei, a taxa de inflação mensal foi praticamente aniquilada – de acordo com dados do Banco Central da República Argentina, de 25,5% em dezembro de 2023 para 2,8% em abril de 2025, sendo que nos primeiros cinco meses baixou rapidamente para os 4,2%. O populismo de Milei, acusado de prometer respostas mágicas para problemas complexos como o da inflação, deixou de ser criticado (quem diria que colocando um travão na emissão monetária se poderia resolver rapidamente a questão), e deu lugar ao alarmismo que apontava para as consequências nefastas que um ajuste tão abrupto carregaria consigo. Bem, uma das principais consequências de parar a bola de neve inflacionista foi a redução da pobreza – de 54,2% no primeiro semestre de 2024 para 38,1% no segundo, com a indigência a cair dos 18,1% para os 8,2% no mesmo período. “E o impacto das reformas na atividade económica?”, pode perguntar-se. Após uma breve queda com a implementação do ajuste, e como já havia escrito aqui há algumas edições, recuperou em V.
Assim, o povo argentino continua a mostrar-nos que reduzir o Estado e devolver a liberdade às pessoas também pode ser popular e ganhar eleições. Sabemos que na Europa ocidental, cuja cultura política desde o pós-Segunda Guerra Mundial foi decisivamente esculpida pelo socialismo democrático, ou social-democracia, o liberalismo pode ser encarado como algo a que devemos, inexoravelmente, resistir. E sabemos também que nenhum dos países da UE está numa situação semelhante, ou sequer comparável, à da Argentina no final de 2023. Mas temos burocracias hipertrofiadas e impostos asfixiantes, mesmo vendo pouco retorno concreto deste esforço fiscal, que nos têm conduzido por um caminho de estagnação, como bem advertiu Mario Draghi no seu importante relatório já esquecido.
Por isto, é necessária uma boa dose de coragem política para colocar, sem reservas, o projeto liberal em cima da mesa. Um projeto em que a mais vulnerável minoria, o indivíduo, como dizia Ayn Rand, volte a tomar as rédeas dos seus projetos vitais. Colocando à margem o medo de olhar para outras comunidades políticas como modelo a seguir em vários vetores que se adequem à nossa realidade. Sem essa coragem, continuaremos inevitavelmente na mesma.
Portanto, olhemos para a Argentina de Milei. Porque se em janeiro a retratei como a cidade brilhante sobre a colina, hoje digo que a cidade continua a brilhar.