Um livro de Ernst Gombrich é sempre uma caixinha de surpresas. Abri-lo desencadeia, de certo modo, a libertação de um génio – não o génio da lâmpada da história de Aladino, mas o génio do grande historiador de arte vienense, que, página após página, nos vai encantando com as suas ideias; os seus argumentos criativos e inesperados; as suas comparações engenhosas; o seu conhecimento imenso e fulgurante; a sua forma de comunicar acessível e generosa.
Ao meu lado tenho a sua obra mais influente (ainda que não a mais popular): Art & Illusion, em português Arte e Ilusão – um estudo sobre a psicologia da representação pictórica. O título pode parecer algo técnico ou especializado, mas basta começar a folheá-la para saltar à vista até que ponto Gombrich era um académico heterodoxo.
Vejamos algumas das ilustrações que acompanham o texto: um diagrama com símbolos usados em guias de viagens; um conjunto de caracteres chineses; um cartoon da New Yorker; uma pintura religiosa italiana de 1285; duas paisagens de John Constable (século XIX); um cartaz de 1953; uma tapeçaria inglesa do século XI; ícones ortodoxos; frescos de Pompeia; quadros abstratos; gravuras do Renascimento; exercícios de ilusão de óptica; e até um desenho feito por uma criança de nove anos…
Creio que não é preciso mais para mostrar a abrangência do seu intelecto. Nascido em Viena em 1909, no seio de uma família de judeus convertidos ao protestantismo, Ernst teve uma sólida formação escolar e académica. Entrou para a universidade de Viena em 1928, e ali estudou História da Arte e Arqueologia. Entregou a sua tese de doutoramento em 1933, o ano em que Hitler tomou o poder. A ascensão do nazismo não augurava nada de bom e em janeiro de 1936 o jovem académico dirigiu-se ao Instituto Warburg, em Londres, então dirigido pelo também vienense Fritz Saxl. Ficou com uma bolsa de dois anos. Em 1938, mesmo antes da anexação pela Alemanha nazi, conseguiu que os seus pais saíssem da Áustria.
Durante a guerra Gombrich trabalhou para a BBC a decifrar as emissões da rádio alemã. Seis anos. Mas não foi tempo perdido. Poderíamos dizer que, para uma mente como a sua, ‘nada se perde, tudo se transforma’.
«Algumas das transmissões que mais nos interessavam eram quase inaudíveis, e tornou-se uma arte, ou até mesmo um desporto, interpretar os poucos sons de fala que eram tudo o que realmente tínhamos nos cilindros de cera nos quais essas transmissões eram gravadas», conta-nos em Arte e Ilusão. «Foi então que aprendemos até que ponto os nossos conhecimentos e expectativas influenciam a nossa audição. É preciso saber o que pode ser dito para ouvir o que foi dito. Mais exatamente, para selecionar, a partir do conhecimento de possibilidades que possuímos, determinadas combinações de palavras e tentar encaixá-las nos ruídos que ouvimos».
Esta questão interessou-o porque a bagagem dos «nossos conhecimentos e expectativas» é decisiva para apreciar uma obra de arte. De certo modo, temos de avaliar e compreender o contexto geral para perceber que aquela pincelada verde é uma árvore e que a mancha cinzenta com um pouco de cor de laranja por cima é uma casa. Sem a colaboração entre o autor e o espectador não há ilusão, que é como quem diz: a arte não consegue produzir a sua magia.
No caso de Gombrich a bagagem era imensa. Conta-se que lhe bastou ouvir o adágio da 7.ª Sinfonia de Bruckner antes de um noticiário para perceber que Hitler tinha morrido. Graças à sua cultura e perspicácia, Churchill foi o primeiro a saber. Ou melhor, o segundo.