O Matuto é admirador de Jazz. Na opinião do Matuto, o Jazz é um estilo musical completo. The “full package” (o pacote completo) como diriam os Ingleses. Resolvidamente, o Matuto acredita que o Jazz tem a resposta para todos os dilemas do mundo. E quando a grandiosidade do crepúsculo do Outono invade a ‘Casa das Pontes’, é no Jazz que o Matuto encontra a sua enseada amena.
Diga-se à laia de explicação, para os leitores mais distraídos, que o Outono, neste país tropical que tão generosamente acolheu o Matuto no seu seio, acontece entre o dia 20 de Março e o dia 20 de Junho. Por vezes parece que o Verão que é Brasileiro por direito de nascença, e que nunca se faz de rogado por aqui, vai reinar banzado e sonolento, o ano inteiro. Tipo um vadio de férias. Mas não! Chegou um frio a valer. Frio mesmo. Toda a gente foi apanhada de surpresa. Casacos enformando os corpos e cachecóis serpenteando pescoços, saíram dos armários. O nariz colou-se à janela suada. No extremo sul, nevou, transformando a paisagem num postal Suiço. As gripes e afins campeiam loucas, e o Matuto contou, num só dia, 73 espirros lançados para o ar. Daqueles que expulsam a alma dos pulmões. Na verdade, as tempestades alérgicas deixam o Matuto, endoidecido. Estes novos vírus surgem encapotados, exímios na arte de fintar o mais aguerrido antibiótico, e já há por aí bactérias de terceira e quarta geração viciadas em paracetamol. Estes dias de Outono despertaram com vontade de recuperar o tempo perdido e empurraram violentamente o Verão para canto. A Belinha – a visita conservadora das ‘Pontes’ – informou: “os hospitais estão a rebentar pelas costuras, mas a delinquência juvenil diminuiu”. O Matuto fica de ouvido arrebitado. “É verdade” – continuou a Belinha – “esses fedelhos, uns pequenos patifes, são treinados para agir à luz do calor tropical. No frio, ficam-se pelos seus barracos que nem bichos enjaulados”. “Haja boas notícias” – suspira a gentil esposa do Matuto, Dona Sirlei.
Quando o Matuto era Matutinho, era-lhe permitido ter duas gripes por ano. Tudo o que ultrapassasse isso, era considerado um exagero temperamental, tratado com olímpica indiferença. Mariquices! Naquele tempo as gripes eram apenas males da existência atribuídas às correntes de ar e às mudanças climáticas. Não confundir com alterações climáticas – avisa o Matuto. Dizia-se que era “a fruta do tempo”.
Naquele tempo, o Outono era para o Matutinho, uma despedida do ‘dolce far niente’ do Verão. O Matutinho perseguia as últimas lagartixas, contemplava os derradeiros ‘pores do sol’, sacudia a modorra estival, arrumava as leituras do “Sandokan: o Tigre da Malásia”, e recebia alegre as primeiras brisas outonais.
Entretanto, outros Outonos materializaram um Matuto que se julgava um dandy Inglês habitando para lá do Canal da Mancha, nos nevoeiros dos campos verdes de Inglaterra. Ontem mesmo, o Matuto viajando cedinho pela estrada, viu como a neblina gélida fez desaparecer os montes e as árvores, desmanchando-os como desenhos a giz num quadro negro. Zuuutt. Sumiram! A bruma suspensa disputou espaço com o horizonte de zinco e fez o Matuto espraiar as memórias pelos trilhos e caminhos Ingleses. E, na vitrola pousou o clássico de Jazz: “The falling leaves drift by the window…” – as folhas caindo, vagueiam pela minha janela. O Matuto lembra-se de chutar as folhas caídas nos parques Ingleses. O restolhar crocante dos esgalhos soltos… Enfim, o Outono chegou. Na vitrola, agora, a voz de Chet Baker, na cozinha Dona Sirlei prepara um chá ancestral de gengibre e ameaça inalações com folhas de eucalipto, no pé a pantufa catita, janota, elegante. O Outono fez cair tudo: a temperatura, a disposição, as folhas… mas nunca a dignidade. Porque um homem quer-se sempre cavalheiro, a gentleman – matuta o Matuto.