No seu discurso no dia 10 de Junho, a escritora Lídia Jorge abordou o tema da escravatura na História de Portugal. Como em vez de falar do futuro se voltou para o passado, parece claro que Lídia Jorge considera que os portugueses devem sentir culpa e remorsos pelos Descobrimentos. Não sendo historiadora, é compreensível a sua ignorância quanto ao facto de terem sido os árabes, e não os portugueses, que, séculos antes, inauguraram o tráfico negreiro intercontinental em larga escala. Poderia conhecer o livro O Genocídio Ocultado: investigação histórica sobre o tráfico negreiro árabo-muçulmano do africano Tidiane N’Diaye; ou, mais simplesmente informar-se no Google sobre os milhões de negros traficados e castrados pelos árabes; ou até sobre o wokismo e a reescrita da História com fins políticos. Mas, já se sabe, uma escritora não tem tempo para ler livros ou navegar na net.
Seja como for, sendo Lídia Jorge uma senhora coerente vai dar o exemplo de como Portugal deveria proceder.
Em primeiro lugar, a partir de 11 de junho metade do lucro das vendas dos livros da escritora vão ser destinados a pagar indemnizações às vítimas do colonialismo. E como é certo que outros escritores e artistas, assim como os comentadores que a aplaudiram, irão fazer o mesmo com os seus rendimentos, o montante será elevado.
No entanto, colocam-se duas questões. Se, como a própria escritora afirmou, os portugueses têm sangue africano, estes também irão receber uma parte da indemnização? E quem será o responsável pela gestão do dinheiro? O governo de Angola? A Fundação Isabel dos Santos? Enfim, boas escolhas não faltam.
Depois, Lídia Jorge, Marcelo Rebelo de Sousa e uma comitiva de apoiantes da vergonha da nossa História irão fazer uma peregrinação pelos países colonizados com uma corda ao pescoço, como Egas Moniz, para expiar a culpa de Portugal. Durante essa peregrinação, que começará em Marrocos e terminará em Moçambique, os representantes envergonhados da nossa História encenarão alguns atos simbólicos alusivos à escravatura.
Primeiro, numa inversão dos acontecimentos passados, eles próprios se colocarão à venda num encenado mercado de escravos para serem comprados pelas populações locais. Ainda que possa acontecer que ninguém dê um pataco por eles, ou até quem pague para eles se irem embora, a pantomina será um ajuste de contas com o passado de tipo olho por olho, dente por dente.
Depois, continuando a recriação da ignomínia da escravatura, Lídia Jorge e a sua comitiva atar-se-ão a troncos de árvores enquanto são distribuídos chicotes pela população africana. Nesta recriação da violência esclavagista, já poderá haver uma participação mais activa da população, seja por realmente se quererem vingar dos portugueses, seja por já estarem fartos do triste espetáculo a que os estão a sujeitar.
O importante é que, finalmente, os envergonhados da História de Portugal, ainda que desconheçam a História da Escravatura, ainda que nunca tenham ouvido falar de wokismo, ainda que não percebam que já fizeram aumentar a votação no Chega, deixaram-se de lamentações hipócritas e passaram a dar o exemplo.
No entanto, para consolidarem os laços com os países colonizados e não voltarem a sentir vergonha do seu país, o ideal seria ficarem em África e nunca mais voltarem para Portugal.