Autarquias sob ameaça

Na defesa do municipalismo, não se pode normalizar a narrativa da extrema-direita. É preciso desmenti-la, porque é falsa e perigosa…

As autarquias locais são o pilar fundamental da prossecução dos interesses próprios das populações, promovida através dos seus órgãos representativos e orientada para a resolução dos problemas das pessoas numa perspetiva de primado do bem comum. Como entidades públicas, desenvolvem a sua ação num determinado território e, dentro da tradição municipalista portuguesa, constituem o nível administrativo mais próximo de cada um de nós.

Esta realidade traz responsabilidades acrescidas e as próximas eleições autárquicas, agendadas para o dia 12 de outubro, não estão imunes às sérias ameaças oriundas dos movimentos que só pretendem lançar o caos, através dos seus discursos de ódio, procurando abalar a base da sustentabilidade democrática de um país.

E se os candidatos sem qualquer capacidade ou preparação proliferam, não constituindo sequer uma opção, a escolha por extremistas ainda será pior, podendo dilacerar por completo o poder mais próximo das comunidades e as decisões locais que tanto as afetam. Por isso, o combate à entrada do populismo e da intolerância nas câmaras municipais tem de ser travado, porque, no plano autárquico, os nomes estrangeiros das crianças nas escolas portuguesas tornam-se em faces concretas, em cidadãos que bem conhecemos e com os quais nos cruzamos diariamente.

Na defesa do municipalismo, não se pode normalizar a narrativa da extrema-direita. É preciso desmenti-la, porque é falsa e perigosa, enquanto se concretizam decisões estruturais com efeitos a longo prazo, recuperando a credibilidade da política e da democracia para as gerações futuras. A par das batalhas a vencer pelas palavras, a melhor resposta reside na execução de projetos geracionais que revelem o cumprimento das missões como autarcas. Só assim se descredibiliza o autoritarismo.

Neste sentido, esteve muito bem Cascais, com o lançamento de um ambicioso plano de desenvolvimento do seu aeródromo municipal, criando nesta importante infraestrutura um novo polo universitário da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa dedicado à Engenharia Aeronáutica e Aeroespacial, assim como diversos cursos técnico-profissionais, celebrados com vários agrupamentos de escolas do concelho, relacionados com a Mecatrónica Automóvel e com a Manutenção de Aeronaves e Material de Voo, neste último caso em parceria com a TAP.

Se estes passos já seriam assinaláveis, por si só, atendendo à captação e retenção de talento, a estratégia vai ainda mais longe, dentro de um conceito de aeropólis num futuro aeródromo universitário, com investimentos em habitação pública e pela dotação de novas ofertas de serviços, de equipamentos públicos e de um parque verde urbano, criando uma excecional centralidade com a correspondente criação de postos de trabalho qualificado.

Nesta missão de salvamento da democracia, são estes os exemplos que salvaguardam a cooperação mútua e o sentido de comunidade, permitindo, pela concretização de objetivos que melhorem a qualidade de vida das pessoas, o restabelecimento da necessária confiança no futuro e nas instituições democráticas.

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