Qualidade de Vida

A Cândida Branca Flor foi uma mulher que espalhou cor e alegria, mesmo quando a sua vida era cinzenta por dentro.

Querida avó,

Cada vez que vejo os cartazes das festas de verão, que acontecem de norte a sul de Portugal, fico a pensar na qualidade de vida dos artistas.  Um dia atuam em Vila Real de Santo António, no Algarve, no dia seguinte em Vila real, em Trás-os-Montes… Hoje as viagens são feitas com alguma qualidade de vida. O mesmo não podem dizer as gerações anteriores, que percorriam Portugal sem autoestradas.

Recordo inúmeras vezes a Cândida Branca Flor. Uma mulher extraordinária, cheia de energia, talento e alegria, que marcou a música popular portuguesa durante os anos 70 e 80. Cujo nome verdadeiro era Maria Albertina da Silva Pacheco.

Desde pequena que mostrava muito gosto pela música e pelo espetáculo. Ainda era jovem quando começou a cantar em festas e arraiais, sempre com um grande sorriso no rosto.

Mas foi nos anos 80 que ficou mesmo conhecida por todo o país. Lembro-me de ser pequeno e vê-la na TV a cantar “Cantigas da Rua”. Uma canção alegre, que fazia toda a gente cantarolar e dançar. Tinha uma voz muito viva e um estilo muito próprio, sempre com roupas coloridas e um ar divertido. Participava em programas de televisão, festivais e concursos – foi até ao Festival da Canção da RTP!

Mas a vida dela também teve momentos difíceis. Apesar de ser muito querida pelo público, nem sempre teve a valorização que merecia, e com o tempo, foi ficando mais afastada do grande palco. Lutava contra problemas de saúde e também de tristeza (desamores). Infelizmente, a sua vida terminou de forma trágica em 2001, quando decidiu pôr fim à própria vida. Tinha só 51 anos.

Ainda assim, ficou para sempre na memória dos portugueses. (Para quem não se recorda, estamos cá nós). As suas músicas deviam ser recordadas nas festas populares e nas rádios.

A Cândida Branca Flor foi uma mulher que espalhou cor e alegria, mesmo quando a sua vida era cinzenta por dentro.

Bjs

Querido neto,

Nem me digas nada. Antigamente demorava duas horas da Ericeira a Lisboa. Hoje, em meia-hora, vou da Praia do Sul à capital. Queres melhor qualidade de vida?

Só tu para me deixares boquiaberta com a tua carta, tens uma memória invejável. Estou na esplanada a lê-la e a recordar a Cândida Branca Flor.

“Cantiga da Rua” creio que é das mais antigas. «Cantiga da rua/ das outras diferente/ Nem minha nem tua/ é de toda a gente/Cantiga da rua, que sobe e flutua/ Mas não se detém/ Inconstante e louca/ Vai de boca em boca/ Não é de ninguém».

“Trocas e Baldrocas”, foi uma das canções mais celebres: «Ai, ai, são trocas baldrocas: altas engenhocas/ que eles sabem inventar!/ São palavras ocas/ faz orelhas moucas/ não te deixes enganar!»

Cantou várias canções do Carlos Paião (temos de falar dele).

Duas pessoas que nos deixaram prematuramente!

Voltando à qualidade de vida, quando eu vivia em Paris com a minha prima Maria Lamas, tínhamos um código secreto: se estávamos disponíveis para falar com as pessoas, receber amigos, etc. — deixávamos a chave do nosso quarto do lado de fora da porta. A dar para o corredor. Quem passava sabia que podia entrar. Se não queríamos receber ninguém, a chave estava por dentro da porta do quarto. Se estávamos fora, a chave ficava, evidentemente, na portaria.

Aqui na casa da Ericeira passa-se uma coisa muito parecida. Eu moro num primeiro andar de uma vivenda de dois andares. Se estou fora, a chave fica na vizinha de baixo. Se estou em casa mas não quero receber ninguém, a chave fica do lado de dentro. Se quero receber toda a gente, a chave nem fica na porta.

É claro que tenho ainda outras facilidades. Ao Sr. Paulo, o meu carteiro, posso pedir-lhe que me deixe as cartas num sítio que me dê mais jeito.

Como dizia a minha neta Adriana quando era pequenita, e eu a levava a comer um gelado, «a isto chamo eu qualidade de vida!».

Ora nem mais.

Bjs