As tarifas são mais do que um capricho

De modo pouco elegante ou polido, Trump está a fazer o trabalho sujo, seguindo a lógica de Lampedusa: ‘Se queremos que as coisas permaneçam iguais, é preciso que tudo mude’.

A diminuição progressiva de barreiras ao comércio internacional, colocada em prática desde o final da II Guerra Mundial, com apogeu com a criação da Organização Mundial do Comércio, em Seattle, em 1995, foi, politicamente, uma construção do poder norte-americano, quer pela supremacia do seu poder económico, quer, porque, do ponto de vista ideológico, o liberalismo económico era o melhor instrumento para o desenvolvimento.
A globalização tomou dimensão verdadeiramente global com o fim da guerra fria, mas não se começou a construir com o fim desta. Foi-se construindo, sobretudo com a ascensão do poder dos EUA.

A forma como Donald Trump passou a utilizar as tarifas como instrumento da ação externa dos EUA, ora premiando, ora chantageando, é chocante aos nossos olhos. Os seus impactos são normalmente analisados com visão curta, medindo os seus efeitos nas populações e nas perspetivas económicas, deixando de fora a dimensão do poder no sistema internacional.
O liberalismo económico está em crise, por imposição dos EUA, porque deixou de servir o seu interesse. Leia-se, pela sua perspetiva de perda de competitividade a longo prazo.

A administração norte-americana sabe que, do seu ponto de vista, houve um erro histórico ao fazer-se da China (e da Ásia, convém começarmos a perceber que há uma questão que vai para lá da China) a fábrica do mundo. No curto prazo ganhou-se muito. No longo prazo, pôs-se em causa a ponderação de poder que melhor servia aos EUA.

Muitos autores têm falado do “ocidente” sobre esta matéria, mas, como as sucessivas crises vêm demonstrando, nem sempre há um interesse ocidental. Há um interesse norte-americano, seguido pela maior parte dos outros estados ocidentais, com progressivamente menos ganhos reais para estes.

Os países do dito ocidente alargado sabiam que o seu interesse nacional era muitas vezes prejudicado. Todavia, no deve e haver, a existência de uma democracia armada, com capacidade de intervenção e que assumia o fardo do poder na defesa coletiva desse espaço imaginário, compensava ocasionais perdas. No fim das contas, o ganho era substancial.

A mudança do eixo do poder (e da riqueza) da Europa para a Ásia determinou o menor interesse do aliado maior nesta, com também menor investimento na sua segurança. Claro está que existem aqueles, sobretudo por perceção de insegurança, que continuam a procurar a sobra acolhedora da asa norte-americana. Os outros, perante o desinvestimento, a prazo questionarão: “o que estamos a pagar”?

Até recentemente, uma Europa forte (UE e outros) como bloco, era do interesse dos EUA. Depois das questões de investimento em matéria de defesa, a forma como as tarifas são aplicadas, sem perspetiva de relações de aliança de longo prazo, transformaram, em matéria de soft power, uma potência outrora vista como benigna, no bully do recreio. E, ninguém gosta de bullies.

De certa forma, os europeus continuam a acreditar que, depois de Trump, virá alguém que irá normalizar as coisas. Porém, de modo pouco elegante ou polido, Trump está a fazer o trabalho sujo, seguindo a lógica de Lampedusa: “se queremos que as coisas permaneçam iguais, é preciso que tudo mude”.
A análise do mundo que aí vem da administração dos EUA pode não estar errada, mas a resposta é a própria de um negociador de soma zero, quer os ganhos todos para si. A resposta está na história, em perceber como se impediu que a União Soviética vencesse a guerra fria: com alianças sólidas.
Trump despreza os aliados, mas sem eles não vai lá. Basta perguntar à sabedoria popular portuguesa: “não é com vinagre que se apanham moscas”.