Espírito da Nação?

A Nação adotou o espírito de treinador de bancada

Qual é o espírito da Nação portuguesa? Alguns comentadores criticaram um obituário de Jorge Costa que afirmava no título que Jorge Costa personificou o espírito da Nação. Portugueses não adeptos do FC Porto nunca poderiam ser fãs do Jorge Costa, mas a pergunta mantém-se: quem personifica o espírito da Nação de Portugal? A que aspiramos como povo? A cultura americana foi fundada no espírito americano: explorador, autossuficiente, resiliente, inovador, trabalhador e otimista. Os americanos veem-se como herdeiros e carregadores do espírito da civilização ocidental. Esta começou na Grécia Antiga, e focava-se em liberdade, excelência e competição. Os eventos fundadores foram a batalha dos 300 contra o exército avassalador Persa de Xerxes. E a vitória dos gregos em Maratona. O império Romano assumiu a liderança militar e espalhou este espírito por todo o mundo ocidental. Mais recentemente os Ingleses, e agora os americanos assumiram essa liderança.  Por algumas décadas no século XVI Portugal liderou, e a nossa Odisseia foi bem cantada por Camões. Mas ninguém reconhece esse espírito no Portugal de hoje. Tal como em Esparta ou no Cairo, não se sente o espírito glorioso que por lá cresceu na antiguidade. 

A história de Jorge Costa é simples. Um rapaz de uma cidade pequena a nível mundial apaixonou-se pelo maior desporto do mundo. Juntou-se ao clube local, e com muito esforço chegou a capitão. Durante a carreira, ganhou o maior número de títulos pelo clube, incluindo 5 campeonatos nacionais consecutivos, feito record e ainda não igualado. Ganhou ainda os títulos internacionais de clube mais cobiçados (Liga Europa, Liga dos Campeões e Taça Intercontinental/Campeonato Mundial). Em termos técnicos não tinha talento acima da média. O carisma exuberante não o presenteou. Mas o coração de entrega, persistência e trabalho ainda não foram ultrapassados. Rompeu os ligamentos do joelho e continuou a jogar durante 15 dias até se descobrir a lesão. Sempre foi humilde. Nunca pediu nada para si. Sempre pôs os interesses da equipa e do clube acima dos próprios interesses.

Este é o espírito de Esparta, Atenas, do Império Romano, de Vasco da Gama e Afonso de Albuquerque, de Nelson e Wellington, de George Washington e de Abraham Lincoln. Mas não o reconhecemos no meio de nós? Talvez porque não é sexy? Não fica bem numa foto do Instagram ou vídeo nas redes sociais?  E assim chegamos a este sentimento de alma pequena e fraco espírito de hoje, que vê no elogio do capitão Jorge Costa como algo a ser ignorado ou mesmo criticado. No meio de festas, caviar, praias e cocktails criticamos líderes mundiais, empresários, atletas, e todos os que no terreno batalham. A mensagem que partilhamos em silêncio, e que os nossos filhos ouvem, é que mais vale ter um comentário sonante do que arriscar algo e perder.  A Nação adotou o espírito de treinador de bancada. Comentador politólogo. Guru. Influencer. Mais seguro. 

A História não esta do lado desta atitude. O declínio gradual até à irrelevância total é o nosso destino. Os verdadeiros heróis de Portugal são os Jorge Costas, os bombeiros que combatem os fogos, os empresários que são os primeiros no trabalho e últimos a sair. E temos muitos, mas não os vemos nem louvamos. O espírito liberal ganhou durante a História, não por ser religiosamente superior ou intelectualmente mais avançado. Ganhou, porque libertou a maior fonte de energia do nosso planeta: os indivíduos sonhadores entregues na perseguição dos seus sonhos. A energia de Jorge Costa.