A Índia no muro

Num contexto de Guerra Fria EUA-China, a Índia tem optado pelo jogo de cintura diplomático, não pelo alinhamento total.

Há algum tempo que defendo que vivemos numa Segunda Guerra Fria. A ascensão meteórica da China desde o início do século XXI – crescimento que muito se deve à ordem que Pequim tem tentado, com algum sucesso, rever – transformou significativamente o sistema nascido após a queda da União Soviética. Como escrevi há algumas edições, estamos perante um enquadramento onde duas superpotências com regimes diferentes e esferas de influência conflituantes se digladiam através de proxy wars, guerras comerciais, tecnológicas e energéticas. É, como não poderia deixar de ser, uma Guerra Fria diferente da primeira. Mas é uma Guerra Fria.

Num contexto como este, existe, como escrevia George Orwell em 1945, uma «paz que não é paz». Um mundo onde dois polos principais se podem destruir em caso de degelo bélico. É neste mundo de areias movediças que outros atores importantes têm de ajustar as suas políticas externas. Existem duas opções clássicas: o alinhamento explícito com uma das superpotências ou o não-alinhamento. Mas a flexibilidade diplomática da Índia é extremamente importante e pode abrir outras portas.

Há pouco mais de vinte dias, a Índia e as Filipinas anunciaram uma parceria estratégica após terem conduzido o primeiro exercício naval conjunto. Local? Mar do Sul da China. De acordo com estimativas da Asia Maritime Transparency Initiative, nesta zona estão concentrados cerca de 11 mil milhões de barris de petróleo e 19 biliões de pés cúbicos de gás natural, sendo que é por ali que circula cerca de 40% de todo o gás natural liquefeito e um terço do comércio internacional. A China, cuja máxima One China Policyé um dos grandes fios condutores da sua política externa regional, reivindica soberania sobre o Mar. Mas outros países da região reclamam a sua quota-parte, com as disputas entre Pequim e Manila a apresentarem-se especialmente intensas. É precisamente por isto que o exercício conjunto Índia-Filipinas no Mar do Sul da China é um sinal diplomático extremamente importante.

Para além deste marco importante, Nova Deli também vem dando sinais de aproximação ao Ocidente. Em 2023, Modi e Biden foram co-presidentes de uma reunião do G20 onde foram discutidos, segundo o Council on Foreign Relations, «o aumento dos investimentos em infraestruturas de alta qualidade e projetos de desenvolvimento através do Corredor de Conectividade Económica Índia-Médio Oriente-Europa (IMEC)». Este corredor tem sido visto como um rival ocidental da chinesa Belt and Road Initiative.

Todas estas movimentações de contenção ao poder chinês por parte da Índia podem facilmente empurrar-nos para a conclusão de que Nova Deli escolheu a esfera ocidental. Mas não é bem assim. A Índia é um dos Estados fundadores dos BRICS e, independentemente de fricções históricas na fronteira, a relação bilateral com a China tem melhorado de forma substancial. Ainda este mês, logo após o exercício conjunto com as Filipinas, o ministro dos Negócios Estrangeiros chinês Wang Yi voltou a pisar território indiano após três anos. O encontro foi, nas palavras do jornalista Shen Shiwei, importante por várias razões, das quais se destacam duas: «a China e a Índia devem considerar-se como parceiros (…) e não como rivais» e «a Índia reafirmou o seu compromisso oficial no princípio “One China Policy “ e «Taiwan faz parte da China”».

Então, onde fica exatamente a Índia neste novo enquadramento? De momento, no muro. Resta saber se será forçada a escolher para que lado cair ou se, numa estratégica diplomática semelhante à que adotou na Guerra Fria, liderará o eixo dos não-alinhados.