Os problemas do mundo rural

Por incrível que pareça, as gentes do campo julgam saber mais sobre o campo do que as outras pessoas

Numa altura em que a consciência ecológica se generalizou graças aos esforços da Greta, em que milhões de citadinos começaram a trabalhar no campo através de jogos virtuais e em que outros milhões apresentam soluções para os problemas rurais também sem nunca lá terem postos os pés, as gentes do campo teimam em não lhes dar ouvidos. Recusam-se a acompanhar o progresso e a participar na salvação da Humanidade.

Por incrível que pareça, as gentes do campo julgam saber mais sobre o campo do que as outras pessoas.

Ao contrário do Farm Fest e outros jogos de gestão agrícola virtual, as gentes do campo continuam a usar processos arcaicos de criação de animais dos quais resulta bosta, urina, moscas, parasitas e uma data de chiqueiros nauseabundos incompatíveis com o bom gosto e a classe. Quem é que seria capaz de entrar num galinheiro, numa pocilga ou numa estrebaria arriscando-se a sujar os seus Timberland ou a partir um tacão dos seus Prada? 

Além disso, porque é que aquelas pessoas trabalham ao sol ficando todas suadas, cheias de terra nas unhas e com o olhar esgazeado de um zombie? Como é que alguém que acabou de tomar banho, pôs desodorizante, perfume e creme nas pernas se pode aproximar de semelhantes criaturas e ter uma conversa civilizada sobre o casamento ou o divórcio de alguma figura pública?

Mas, o mais grave, é que os labregos continuam a ignorar os direitos dos animais matando seres sencientes para fazer comezainas com excesso de calorias. Além disso, em vez de ensinarem a Identidade de Género aos filhos, põem-nos a assistir à matança do porco, a dar traulitadas no toutiço dos coelhos e a apertar as tetas às vacas. 

Porque é que não aceitam que os hipermercados já vendem carne, leite, fruta e legumes sem necessidade de agricultura? Porque não abdicam daquelas práticas bárbaras e começam a praticar mindfulness e yoga? E quando é que começam a tirar selfies?

Além do mais, ano após ano, os labregos ignoram os conselhos dos especialistas em Incendiologia dos telejornais e deixam arder os montes. Bastava fazer umas limpezas – ainda que ficassem a suar –, soltar umas cabras e plantar carvalhos – que toda a gente sabe que não ardem, tal como as golas dos bombeiros. Mas, dada a sua natureza retorcida que se compraz com o abate de animais e se extasia com fedores, deixam arder.

Em Roma, no século II a.C., dois comunas chamados Gracos tentaram fazer uma reforma agrária que retiraria terras aos citadinos ricos para as distribuir por camponeses pobres. Em Portugal, no século XXI, dada a má fé das gentes do campo, é preciso fazer o contrário: tirar as terras e os animais aos labregos incultos e entregá-los a urbanos sofisticados. Então, estes, com a sua experiência do Farm Fest e posts de apoio à Greta, começarão a salvar o campo.