O mundo está a mudar. O reajuste do sistema internacional é a realidade e a sua alteração parece, cada vez mais, uma inevitabilidade. A ordem liberal internacional que, pautada pela hegemonia dos Estados Unidos, marcou as relações internacionais nas últimas sete décadas está em retrocesso. As ameaças colocadas pelas chamadas economias emergentes, leque do qual se destaca inevitavelmente a China, às potências tradicionais aumentam e a engrenagem ocidental está enferrujada (que se diga que está completamente partida parece-me um exagero).
Donald Trump encara os aliados como parasitas que se alimentam às custas dos parceiros transatlânticos. Numa abordagem vincadamente nixoniana, aumentou tarifas, tem forçado o aumento da despesa em defesa e tentou afastar a Rússia da China – desta vez com os papéis invertidos. Por sua vez, a Europa está num estado crítico. A crise que abalou os países mediterrânicos e a Irlanda na última década está a chegar às principais economias europeias – Alemanha, França, Reino Unido – que, através de uma série de erros estratégicos consecutivos, se encontram numa posição de vulnerabilidade económica, financeira, militar e diplomática. Este último ponto tem ficado claro nas várias interações com Trump.
Mas a suposta estratégia do presidente norte-americano para afastar Putin de Xi parece ter saído furada. Pequim e Moscovo anunciaram em fevereiro, pouco depois de Trump ter assumido de novo as rédeas da Casa Branca, uma «parceria sem limites» e têm sido os chineses os principais aliados de Putin no que diz respeito ao seu esforço de guerra na Ucrânia. Esta amizade euroasiática ficou clara na mais recente Cimeira da Organização para a Cooperação de Xangai (OCX), que juntou as grandes caras do eixo antiocidental: Vladimir Putin, Xi Jinping, Kim Jong Un e Masoud Pezeshkian. Pelo meio, esteve também o Secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres, que, talvez num esforço desesperado de manter a organização que lidera num patamar mínimo de relevância, apelou à construção de um «mundo multipolar» e enfatizou a importância da Cimeira de Xangai na persecução desse objetivo último. Mas será mesmo assim?
Sergey Radchenko expôs de forma lapidar na Foreign Policy que não. Depois de referir que a OCX foi criada com o objetivo principal de conter as disputas entre a Rússia e a China, Radchenko aponta para o facto de que, após a «adesão da Índia; Paquistão; Irão; e, mais recentemente, a Bielorrússia» essa grande missão «diluiu-se». «Agora», escreveu o professor, «não passa de uma oportunidade glamorosa para banquetes multilaterais». Foi também uma oportunidade para a China exibir o seu arsenal ao estilo característico dos grandes ditadores da história. Por isto, acrescentou o historiador russo-britânico, independentemente dos «clichés», não consta da declaração conjunta «um projeto para um mundo pós-ocidental».
Assim, em que ficamos? Com o Ocidente dividido e com o resto a exibir união – mesmo que por vezes de forma manifestamente exagerada – e vontade de rever o sistema, a probabilidade para o renascimento de uma ordem liberal internacional parece claramente desfavorável e os contornos de uma provável nova ordem não são fáceis de prever. O que é possível garantir com segurança é que numa ordem em que o eixo dos ditadores seja o mais forte, todos os que prezam a liberdade, o estado de direito e as instituições em que ele assenta, sairão a perder.