Vivemos em alta rotação, num mundo que gira cada vez mais depressa, e que está mais ruidoso e exigente. Em que há pouco tempo e espaço para ouvir o outro. Onde as relações são, por vezes, mais digitais do que presenciais, mais superficiais do que verdadeiras. Os jovens, por sua vez, são pioneiros involuntários da nova realidade tecnológica, onde as ferramentas que utilizam evoluem a uma velocidade maior do que a nossa capacidade para compreender os seus efeitos. É um mundo que deixa pouco espaço para o pensamento e reflexão, onde muitos se medem mais pelo que aparentam ser do que pelo que são.
Não é por acaso que vários estudos apontam para um aumento significativo dos níveis de ansiedade e depressão entre os jovens.
Em poucos anos, sofremos uma série de alterações e tem sido exercida uma maior pressão sobre os mais novos, sem nos termos perguntado se iriam aguentar, se teriam recursos suficientes para lidar com todas estas mudanças. Hoje temos a resposta.
Quando as crianças estão em idade pré-escolar, começam as preocupações com as competências: se falam uma segunda língua, se já sabem contar, se conhecem as letras, se estão ao nível dos colegas, dos filhos dos amigos ou dos vizinhos. Paralelamente, inicia-se a busca pela escola perfeita, aquela que irá prepará-las melhor para o primeiro ciclo, como se estivessem prestes a ingressar na faculdade.
Com a entrada no 1.º ano, a pressão e o receio relativamente às aprendizagens e ao desempenho aumentam e podem mesmo afetar o desenvolvimento emocional dos mais novos e o prazer de aprender. Simultaneamente, a proteção e o controlo excessivo condicionam a autonomia e o desenvolvimento de ferramentas próprias para lidar com os desafios da vida.
À medida que as crianças crescem, os horários escolares adensam-se, os currículos tornam-se mais sobrecarregados e as avaliações mais exigentes. Muitos jovens acabam por se isolar, perdendo o contacto com recursos humanos essenciais e enfrentando um novo desafio: a pressão social e a comparação com vidas e pessoas quase virtuais, aparentemente perfeitas. O esforço para se igualarem a essas imagens pode ser frustrante e solitário, com consequências diretas na sua confiança e autoestima.
Chegados aos 14 ou 15 anos, apesar de muitas vezes ainda não estarem preparados, os jovens têm de escolher a área que os irá conduzir a um curso que – supostamente – definirá o seu futuro. Claro que têm de optar pela melhor área: aquela que permitirá a entrada num bom curso, que conduzirá a um bom emprego, onde se receba um bom ordenado, e, se possível, que seja do seu agrado. Até porque o cenário é cada vez mais imprevisível e instável. Não é pedir muito!
Perante um mundo cada vez mais rigoroso e incerto, onde a rede de apoio parece descosida e onde há pouco espaço e tempo para conhecer, perceber e pensar as emoções, por vezes o corpo acaba por ressentir-se e refletir o mal-estar através de uma série de sintomas, mais ou menos discretos e silenciosos – como a irritabilidade, os medos, as insónias, as dores de estômago, a dificuldade de concentração ou de tomar decisões. É sobretudo quando a panela de pressão começa a apitar e surgem sensações novas e assustadoras – como a taquicardia, a falta de ar, a dor no peito ou a sensação de que se vai morrer – que os alertas disparam. Talvez seja a altura de abrir a tampa e deixar que a infância e a juventude possam respirar e apurar lentamente em lume brando.