A 11 de janeiro de 49 a.C., Júlio César liderou uma manobra que acabaria por mergulhar Roma numa guerra civil. Atravessar o rio Rubicão, uma linha vermelha para o Senado romano, foi o primeiro passo rumo à desintegração da República que acabou por ceder passagem ao Império.
2073 anos depois, parece cada vez mais evidente que a jovem república americana atravessou o seu próprio Rubicão. Desta vez não se trata de uma fronteira legal definida por um rio, mas de uma fronteira moral, ética, civilizacional e, claro, democrática que foi cruzada por meio da violência política.
Numa era altamente polarizada – uma polarização que foi, aliás, estimulada por correntes e fanatismos ideológicos totalitários, ainda que suaves, e não só permitida, como também impulsionada por certas elites políticas – a distância entre a civilização e a barbárie, entre a convivência e o conflito, é muito curta. Em 2024, essa distância, que acabou por se esbater, foi de milímetros. Se Trump, à data ex-presidente e candidato presidencial, não tem desviado na altura certa o olhar para um gráfico, a realidade política hoje poderia ser radicalmente diferente. Não foi difícil há pouco mais de um ano acreditar que um cenário de guerra civil seria altamente provável. E os acontecimentos recentes confirmam essa crença.
No espaço de uma semana, dois eventos podem bem ser a machadada final numa coesão social que se revelava cada vez mais reduzia (para surpresa de ninguém que tenha acompanhado racionalmente as dinâmicas das sociedades ocidentais nos últimos tempos). Primeiro, o homicídio brutal de uma jovem ucraniana que procurou nos Estados segurança e oportunidades que o seu país, invadido pelos russos, não lhe conseguia proporcionar. (Para mais contexto, ver páginas 40 e 41).
Depois, o assassinato de Charlie Kirk na quarta-feira enquanto debatia aberta e livremente, como de costume, com estudantes universitários – principalmente com aqueles que com ele discordavam de forma intensa. E, antes de ser conservador, influencer, apresentador, membro do círculo íntimo de Trump, Kirk era um jovem. Pai de duas crianças que serão forçadas a crescer sem uma figura paternal devido a um ato criminoso impulsionado por sectarismos ideológicos nefastos. Um jovem baleado por estar a fazer o que é suposto numa sociedade livre: entrar em combates onde a única arma permitida é a palavra. E o que torna a ruína moral de muitos indivíduos – que, por sinal, se creem arautos da democracia e liberdade – cristalina é a imediata relativização de um assassinato político. O que creio também ficar evidente é o cancro que a ideologia e os idealismos representam para a liberdade. Roger Scruton dizia, do alto da sua admirável lucidez, que o mundo precisa de menos idealismo, porque nos «sistemas idealizados» acredita-se que «como [o mundo] não era o que devia», os grandes idealistas «tinham o direito de o alterar radicalmente». «O resultado imediato foi o genocídio». O tempo vem-lhe dando cada vez mais razão.
Por isto, infelizmente, os americanos parecem ter atravessado já, de forma decisiva, o Rubicão. É difícil imaginar como pode uma sociedade decisivamente fraturada recuperar a harmonia, a civilidade e o respeito pelas regras que pautam os nossos sistemas liberais.
Na véspera do 11 de setembro, outra tragédia faz entrar os Estados Unidos numa era altamente perigosa e imprevisível. E como alegadamente disse Júlio César ao atravessar o Rubicão, alea jacta est (os dados estão lançados).