Os ‘epitáfios’ ruidosos das redes sociais

As reações a estas duas mortes são um sinal de alerta. Sinal de que uma fronteira foi ultrapassada.

Um divulgador de notícias falsas, conspiracionismo e discurso de ódio (…) mobilizador de massas, agitador digital, conspiracionista e conselheiro de Trump, [Charlie Kirk] morreu com um tiro». Esta espécie de epitáfio, saído num diário dito ‘de referência’ no dia 12 deste mês, nada diz sobre Charlie Kirk, mas diz muito, diz mesmo tudo sobre quem o escreveu. Como diz muito sobre os milhares de ‘epitáfios’ deste género surgidos nas redes sociais e dos meios de comunicação tradicionais por todo o mundo.

Há poucos dias, em Portugal, foi ruidosamente festejada, pela Esquerda animalista, a morte de um jovem forcado colhido por um touro no Campo Pequeno. ‘Menos um’ gritaram eles. E lembrei-me então dos domingos, ao longo de vários anos em que um dos meus filhos, forcado, ia para as praças, um pouco por todo o lado, fazer frente à vida e à morte. Mais à morte em algumas praças espanholas, com touros não embolados. Lembro-me da preocupação com que o via sair na manhã desses domingos e do alívio que sentia quando o via chegar, à noite, apenas com uns rasgões, uma nódoas negras ou a coxear. Uma preocupação e um alívio que nunca mostrei, porque entendia que com todos os seus riscos, aquilo era uma escola de vida, de firmeza, de coragem e de entreajuda. Num mundo onde a cobardia é a regra, a moleza é a norma e o salve-se-quem-puder faz a lei, aquilo era uma forma de aprender a ser uma exceção a essa regra. E lembro-me, como se fosse hoje, do profundo alívio e do graças-a-Deus dado no dia em que esse ciclo se fechou. Todos esses quatro anos me vieram vivamente à memória quando li os muitos «menos um» espalhados pelas redes. Esse jovem forcado morto tinha pais que leram esse «menos um». Pais que teriam de conviver o resto da vida com um lugar vazio na mesa de jantar. Mas para essa esquerda animalista, nada disso conta. Porque ela é desumana e desumanizadora.

 Não gosto de falar e menos de escrever, sobre questões e sentimentos pessoais mas, por vezes, importa darmos testemunho quando tudo à nossa volta se dissolve corroído pelo ácido de uma inumanidade primeva que de tempos a tempos desponta e nos surge como uma ameaça existencial ao que há de mais básico na nossa humanidade.

As reações a estas duas mortes são um sinal de alerta. Sinal de que uma fronteira foi ultrapassada. Estas reações são qualitativamente diferentes do mero ‘discurso de ódio’, porque refletem a desumanização do outro, neste caso dos adversários de uma ideologia que se imaginava triunfante e descobre, de repente, que há quem resista ao rolo compressor supostamente imparável. Desumanizado, o adversário está ali para ser caçado e abatido a tiro, por um touro, ou numa câmara de gás. Mudam os tempos e os métodos, só não muda o totalitarismo intrínseco das ideologias que desumanizam os hereges que se recusam a ser o ‘homem novo’. Esse ‘homem novo’ que os socialismos insistem em criar, quer nas sua passadas versões nacional-socialistas ou marxistas, quer na atual versão modernaça woke.

Eu e inúmeros milhões, recusamo-nos a ser transformados em ‘homens novos’ todos iguais, anódinos e inodoros, sombras de sombras, escravos formatados em série para servir uma casta global que se julga divina. Não tentem caçar-nos. Porque, tal como em 1945 e 1989, custe o que custar ‘no pasarán’.

Vice-presidente da Assembleia da República