Porque ganha Montenegro

Luís Montenegro, hábil no jogo político, não promete milagres, promete trabalho. Não grita, insiste. E essa insistência, num tempo tão volátil, é o seu maior capital político

Há figuras políticas que se impõem pela eloquência, outras pela visão, e há aquelas que assentam a sua ação na força da persistência – uma qualidade silenciosa que emerge nos momentos chave. Luís Montenegro pertence a essa última categoria: a dos resistentes. É um homem que constrói, degrau a degrau, a sua própria legitimidade num país que raramente perdoa a paciência e prefere o brilho fácil à consistência. Essa matriz, que tantos desvalorizaram, esteve no centro do reforço do PSD no passado domingo. As eleições eram locais, mas houve uma impactante vitória nacional que foi um voto de confiança no primeiro ministro.

Desde o início, Montenegro teve de lutar contra o ceticismo, inclusive dentro do seu próprio partido. Muitos olharam para ele como um rosto do passado, um ‘segundo plano’ da era Passos Coelho, uma figura disciplinada, mas sem rasgo. Quando regressou à vida política, depois de anos de afastamento, e em plena maioria absoluta socialista, parecia condenado a uma longa caminhada no deserto – e, no entanto, soube, não apenas esperar, mas preparar a oportunidade. O seu percurso até à chefia do Governo foi um exercício de tenacidade em estado puro, construído à sombra do ruído mediático e à margem do entusiasmo instantâneo. Teve sorte? Também, mas é preciso trabalhar e estar para estar à altura do momento em que a sorte aparece.

Há, em Montenegro, uma espécie de estoicismo a que já não estávamos habituados. Não se entusiasma com as vitórias nem se deixa abater com as adversidades. Falta-lhe, talvez, o magnetismo emocional de outros líderes, mas compensa-o com algo mais raro: uma confiança interior que não precisa de ser exibida. O seu carisma, assenta até numa certa solidão, por vezes confundida com teimosia.

Portugal, depois de anos de fadiga política, parece ter reconhecido nesse perfil uma forma de autoridade tranquila. O país que cresceu, mas não se reformou com António Costa, e que tem vivido sob o ruído crescente de uma deriva populista, parece disposto a dar espaço a um primeiro-ministro que não se limita a dominar a cena – quer deixar uma marca. É uma mudança de paradigma que parecendo subtil pode ser profunda e esse é o teste seguinte. Luís Montenegro, hábil no jogo político, não promete milagres, promete trabalho. Não grita, insiste. E essa insistência, num tempo tão volátil, é o seu maior capital político.

O seu percurso é também uma resposta a uma época em que a política se tornou refém da velocidade e da emoção. Montenegro não é um político de ‘instantes virais’, é um político de permanência. A sua tenacidade – muitas vezes confundida com rigidez – é, na verdade, uma forma de fidelidade ao tempo longo da democracia. E talvez seja essa fidelidade que o torne, hoje, uma figura singular na paisagem portuguesa: não o homem que chegou cedo demais, nem o que chegou por acaso, mas o que simplesmente não desistiu.

No fim, Luís Montenegro encarna uma virtude antiga e desvalorizada: a de resistir. Resistir às derrotas, às intrigas, ao cansaço e até à dúvida dos outros. Num país habituado à desilusão rápida, talvez a sua solidez esteja a devolver a esperança aos eleitores. l

P.S. Numa entrevista à RTP, Hugo Soares – ‘sem receio das palavras’ – não fez por menos: as fontes do mais recente capítulo do Caso Spinunviva «podem ter sido inventadas». Seria só uma certa ligeireza, mas é grave No fundo, e tendo como sustentação um comunicado emitido em tempo recorde pela mais lenta instituição do país, Hugo Soares insinua que andamos a inventar notícias. Pois, lamento muito. Podemos vir a ter inquérito ou não, mas que há no MP quem, com responsabilidades, defenda a instauração do mesmo é um facto. Tem a palavra o PGR