A Vingança dos Átomos

Valerá a pena? Não saberemos até daqui a 10 anos. Mas se entregarem carros autoguiados, cura para o cancro, robótica industrial e mesmo para tarefas domésticas, e aumento substancial na produtividade de serviços, então o retorno virá.

Há 25 anos atravessámos um período de euforia com a emergência da Internet e a “Nova Economia”. Muitos negócios foram lançados, financiados a altas avaliações e os mercados financeiros dispararam. Dois anos depois a grande maioria das empresas tinha falido, as que resistiram perderam mais de 90% de valor e a opinião comum era de que tínhamos vivido mais uma bolha do tipo das tulipas holandesas. Com o forte investimento em Inteligência Artificial que atravessamos, muitos vaticinam uma repetição desse episodio 25 anos depois. Têm razão? Sim e Não.

A narrativa aceite comummente para a revolução da internet está incompleta. Sim a euforia e carnificina referida acima aconteceu. Mas as premissas da revolução provaram ser mais certas do que o reconhecido: a) novos modelos de negócio emergiram (google, social media, streaming, comercio eletrónico, …) e b) talvez mais surpreendentemente, as projeções feitas durante o final dos anos 90, princípios dos anos 00 provaram ser corretas quando comparadas com a realidade que ocorreu.

Os empresários e investidores das melhores empresas tiveram retornos muito altos, talvez sem paralelo na história do capitalismo. Por exemplo, a Google apenas levantou $26 mn de capital antes do seu IPO. Vale neste momento mais de $3 triliões. Amazon levantou quase $10 mn antes do IPO mas vale hoje $2 triliões.

Por outro lado, as melhores empresas da atual revolução tecnológica são muito mais capital intensivas. A OpenAI já levantou quase $58 biliões (e ainda não é publica) mais de 2000 vezes o valor da Google. A Anthropic levantou mais de $27 biliões (ainda privada também) mais de 1000 vezes o valor da Google.

Para além destes valores imponentes, também muitos fornecedores (em semicondutores, energia, data centres, …) têm levantado valores comparáveis para investir na revolução da Inteligência Artificial. Por exemplo, só para alimentar os Data Centers previstos pela OpenAI para 2033, seria necessário um investimento em infraestrutura de geração de energia de vários triliões de dólares.

Valerá a pena? Não saberemos até daqui a 10 anos. Mas se entregarem carros autoguiados, cura para o cancro, robótica industrial e mesmo para tarefas domésticas, e aumento substancial na produtividade de serviços, então o retorno virá.

Como investidores, somos pagos para descobrir a verdade, investir nas joias desprezadas e evitar euforias injustificadas. Algumas conclusões prévias emergem: a) o nível de investimento em infraestrutura física será elevadíssimo na próxima década comparado com as anteriores; b) a imobilidade dessa infraestrutura, aliada a um contexto de desglobulização fará da localização e geopolítica uma consideração fulcral dos investimentos; c) os elevados montantes envolvidos farão da escala uma barreira à entrada semelhante à das indústrias pesadas do início do seculo XX.

Os próximos anos oferecem uma oportunidade geracional de criação (e destruição) de valor para investidores profissionais de excelência. É um privilégio enorme fazermos parte deste capítulo.

PS: esta é a minha última coluna no Jornal Sol. Muito Obrigado a todos por terem seguido as minhas observações. Se for útil para alguns, poderemos continuar a conversa noutro formato, sempre focados em ideias novas, fora do consenso, orientadas para o crescimento e autoalimentadas, isto é, sem necessidade de apoios ou investimentos do sector publico. Se tiverem sugestões entrem em contacto em pedro.ramos@somarcap.com