A semana (de 1 a 5 de novembro)

Apesar das dificuldades, Cotrim de Figueiredo pode, e deve, fazer uma boa campanha. Com Ventura, é o único dos candidatos que quer mudar Portugal. Com Gouveia e Melo, Marques Mendes e António José Seguro, vai ser mais do mesmo.

SÁBADO, 1

Como um portista vê as eleições do Benfica

Qualquer adepto de futebol respeita a história do Benfica. Além disso, sendo um portista de Lisboa (graças a Deus, não deixei que a minha cidade determinasse a minha felicidade), tenho grandes amigos benfiquistas e familiares muito próximos também do Benfica (os meus filhos, obviamente, que são portistas). Mas parece-me que o Benfica tem muita história e pouco presente. E isso leva os benfiquistas a valorizarem demais a quantidade e de menos a qualidade.

Ficaram eufóricos porque bateram o recorde mundial de número de eleitores numa eleição. Olho para essa alegria com espanto e apenas consigo ver consolo de quem não tem grandes alegrias há muito tempo. Um clube de futebol existe para ganhar taças, não para bater recordes eleitorais. O problema dos benfiquistas não são as competições nacionais. Em Portugal, são sempre candidatos e podem ganhar qualquer competição, tal como o Porto e o Sporting. O grande trauma dos benfiquistas é que deixaram de ganhar competições europeias e internacionais. A última que venceram foi na década de 1960 do século passado. Ainda por cima, nos últimos 40 anos viram o Porto ganhar 4 competições europeias e duas mundiais. Consolam-se assim com as maiores eleições mundiais de clubes de futebol. Um consolo partilhado por muitos não deixa de ser um consolo. E um consolo não é uma vitória, mesmo que muitos queiram acreditar nisso.

DOMINGO, 2

Cotrim de Figueiredo, candidato da IL

Cotrim de Figueiredo foi corajoso com a candidatura a Belém. Arriscou, e bem. Mas seria melhor para a sua candidatura se André Ventura não se tivesse candidatado. Seria ele a preencher um espaço político do centro-direita para a direita que cresceu em Portugal. Com uma boa campanha, teria francas hipóteses de ir à segunda volta. Com a candidatura de Ventura, fica tudo mais difícil.

Mas, apesar das dificuldades, Cotrim de Figueiredo pode, e deve, fazer uma boa campanha. Com Ventura, é o único dos candidatos que quer mudar Portugal. Com Gouveia e Melo, Marques Mendes e António José Seguro, vai ser mais do mesmo. Nem sequer sabem o que se deve fazer para mudar o país. Vão dizer apenas banalidades como pactos de regime, melhor saúde, melhor educação, uma imigração humanista e controlada. Não são capazes de ir além das banalidades porque querem estar ao centro. E quem está ao centro tem apenas um objectivo: não desagradar. Quem não quer desagradar, faz uma campanha de medo, sem coragem e sem ousadia. Só acham que mostram coragem quando atacam Ventura, mas isso não é coragem, é apenas populismo fácil.

Cotrim não pode ter medo. Para Ventura, as mudanças são o combate à corrupção, à imigração ilegal e à insegurança. Cotrim deve concentrar-se no que Ventura não é capaz de fazer: mudanças na economia. Tem que explicar aos portugueses o que é necessário fazer para o país aumentar a produtividade económica, para baixar a sério a carga fiscal, para os portugueses enriquecerem. Em suma, dizer aos portugueses o que se deve fazer para a economia portuguesa crescer entre 3% a 4% ao ano. A saúde e a educação só melhoram se Portugal for um país mais rico. Os ordenados só aumentam se Portugal for mais produtivo. Tem que explicar isto sem medo. Sobretudo, sem medo de dizer que haverá custos e derrotados para reformar o país, mas a alternativa será o empobrecimento e o declínio lento mas irreversível. Se fizer uma campanha a defender o caminho para um país mais rico, pode perder as eleições, mas deixará raízes políticas para o futuro.

SEGUNDA, 3

Luís Campos e Cunha desmente Sócrates

Luís Campos e Cunha, o primeiro ministro das Finanças dos governos de José Sócrates, foi muito claro. Sócrates apresentava planos de investimento público sem os discutir com o resto do governo e sem que eles fossem estudados e melhorados pelos ministérios das Finanças e da Economia. Não admira que os governos de Sócrates tenham levado o país à falência.

Mas além de ter exposto a incompetência de Sócrates como PM, também mostrou alguns dos esquemas de Sócrates para fazer negócios quando esteve à frente do governo. A estratégia passava por colocar pessoas de confiança, ou que não criassem problemas, em cargos decisivos. Por isso, Sócrates tentou convencer Campos e Cunha a nomear Santos Ferreira para Presidente da CGD e Armando Vara para o Conselho de Administração do banco. Honra seja feita a Campos e Cunha que nunca aceitou. Tem o meu respeito e admiração. Após a demissão de Campos e Cunha, Sócrates conseguiu colocar os seus amigos na CDG e sabemos o que aconteceu. 

Mas Campos e Cunha mostrou outro ponto muito importante. Se ele percebeu que as intenções de Sócrates não eram as melhores nem as mais claras, como é que todos os outros ministros socialistas não entenderam? Claro que também perceberam, mas esperavam que nunca fosse público. O PS não se afastou de Sócrates pelo que ele fez, mas porque foi descoberto. 

TERÇA, 4

Ventura e sua versão do presidencialismo

André Ventura está a fazer campanha afirmando que, no caso de ser eleito, exercerá os poderes presidenciais de um modo activo. De certo modo, foi Marcelo Rebelo de Sousa que mostrou a possibilidade do activismo presidencialista. Tinha opiniões sobre tudo, interveio muito mais do que devia, fez uma aliança com António Costa (contra Passos Coelho), despediu ministros e dissolveu parlamentos. O problema de Marcelo é que nunca foi consequente, nem nunca mostrou um rumo para Portugal. Ninguém sabe o que pensa sobre Portugal (tirando algumas banalidades com as quais ninguém discorda), a não ser que está convencido que tinha um direito natural para chegar ao poder. Foi um Presidente que se comportou como um privilegiado que cumpriu o seu destino, e nunca como um servidor dos portugueses e dos eleitores.

Ventura aprendeu com Marcelo que o presidencialismo permite uma intervenção política forte. A eleição directa por uma maioria de eleitores concede uma legitimidade política poderosa. Muitos em Portugal confundem poder de intervenção com poderes executivos. A presidência da República não é um cargo executivo, mas carrega muito poder político. Ventura não esconde que pretende exercer esse poder, se for eleito. Resta saber se chegará a Belém e, se lá chegar, se saberá usar o poder presidencial melhor do que Marcelo.    

QUARTA, 5

A vitória da extrema-esquerda em Nova Iorque

Os democratas ganharam três eleições importantes nos Estados Unidos: a presidência da Câmara de Nova Iorque, e os governos dos estados de Nova Jérsia e da Virgínia. Não foi uma derrota para Trump, mas foi um aviso para o Presidente norte-americano. A insatisfação com Trump aumentou desde a sua eleição. Um dos Pais Fundadores, George Washington, definiu os Estados Unidos, logo após a sua fundação, como «a republic, if you can keep it.» Os americanos são profundamente republicanos e democratas. Não gostam de ver um Presidente comportar-se como um monarca, que confunde o seu cargo público com os seus interesses privados e com a sua família. Os Estados Unidos não são uma monarquia europeia. Trump devia sabê-lo.

Quanto às vitórias dos democratas, são todas diferentes. A vitória em Nova Jérsia é normal, já que é um estado tradicionalmente democrata. A vitória de Mamdani em Nova Iorque revela muito folclore político, e será um presente envenenado para a ala radical do partido democrata. Como escreveu o Wall Street Journal, depois do sonho da campanha, vem aí o pesadelo de governar Nova Iorque. Sem experiência política, Mamdani terá uma tarefa quase impossível. Desconfio que a vitória do radicalismo em Nova Iorque vai levar o partido democrata a escolher um moderado, da ala direita do partido, para as próximas eleições presidenciais.

Foi precisamente uma moderada que venceu na Virgínia. Uma antiga oficial da CIA da linha pragmática dos democratas. Neste caso, foi uma vitória importante porque o antigo governador era um republicano. Apesar da visibilidade da disputa eleitoral em Nova Iorque, a eleição na Virgínia é que indica o futuro do partido democrata.