Quando se nasce numa cidade, numa casa, numa rua, numa família integrada em comunidade, o sentido antropológico e sociológico do “viver aqui” adquire uma complexidade e uma carga emocional que nos transporta para um tempo nosso e dos outros-nossos. Somos transportados por várias e diferentes linhas temporais que nos ligam aos nossos antepassados e nos apontam o caminho novo, feito pelos outros que por aqui já foram actores e transportadores de memórias, de histórias e de vidas comuns ou ligantes. Que nos deram a vida e nos permitiram o “ser”. Gente que já viveu, que experienciou, que amou, que esperançou.
É este sentimento de vida em comum que permite um viver aqui com os outros, partilhar o mesmo pathos, a mesma ecologia e a mesma topologia. Usar os mesmos caminhos, as mesmas terras, as mesmas ruas, as mesmas fontes, os mesmos degraus, as mesmas pontes e as mesmas casas, os mesmos santuários, capelas e Igrejas. Uma vida em comum por onde se cruzam as “poucas” diferenças, umas de natureza e outras de condição. Um espaço social com as mesmas famílias, os mesmos nomes e as mesmas ligações. Umas são de exaltação e comunhão e outras são de invisibilidade e de submissão.
Aqui vivemos todos em comunhão, uns são normais e formatados e outros são anormais e classificados. Existe uma normalidade controlada e institucionalizada e, uma anormalidade consentida e policiada. Com destaque para Família, Igreja e Escola que em nome do Estado ou Deus se apresentam como instituições do controle, pregando a boa moral.
Esses caminhos e ruas que nos levam da casa à praça e à igreja. Que nos acompanham no nascimento, no casamento e na morte. Ciclos de vida onde reina a festa e o jejum, a melancolia ou a celebração. O medo da morte plasmado em ritual que celebra a vida do amigo ou familiar que partiu, inscrito nos espaços e nas memórias vividas com os outros, partilhadas em celebração, umas simbólicas e outras materiais.
Neste fio do “viver aqui” a linguagem, a nossa linguagem com pronuncia de um norte carregado solene e popular, marcado pelo tempo longo e único, aponta para uma individualização do self que outros, querem carregar com estigma e identidade negativa. A nossa “fala” herdade em contexto de vida vivida, transmitida em contexto familiar ou de grupo colectivo, leva-nos ao carregar das sílabas, ao trocar dos “vês” pelos “bês”, nada mais, nada menos que a força do ethos que tem na fala a sua maior idiossincrasia cultural. O nosso maior património imaterial colectivo fundante e fundador da nossa unidade, monumental e monumento da vida em comum -, a nossa fala é o nosso eros colectivo.
Com a vida moderna e a industrialização da fala, assiste-se à sua massificação e formatação, o lugar desaparece para dar lugar a uma globalização com outra fala e outros espaços e outras espacialidades. Alguns autores consideram que estamos perante a erosão do «acontecimento recordado», em proveito do «acontecimento esquecido», que nos colocaria perante a impossibilidade de um experienciar a vida em memória, numa clara perda de consciência histórica.
O mundo social parece mais estreito e mais nosso, mas objectivamente ele continua distante, cinzento, silencioso e indiferente ao nosso viver. Os media, as plataformas digitais com as suas redes patrocinam essa ilusão e essa ficção de vida globalizada e comum. Na realidade o furação da globalização é incompatível com a vida local, com a vida real em comum na nossa vila ou cidade. Fizeram-nos crer que as teorias da dependência já não faziam sentido, que a globalização tinha reprimido a dependência, que estávamos condenados a viver num mundo com uma economia circular numa sociedade globalizadamente liquida.
Afinal, só temos a nossa cidade, a nossa vida, a nossa humanidade luminosa em partilha com os outros, nessa estranha e bela convivência.