Há que distinguir soluções simples de soluções simplistas

A decadência da Europa deve-se à falta de coragem política para enfrentar mitos ideológicos, ambientes adversos, mas, sobretudo, interesses enraizados.

Todos os dias leio e ouço, por aqui e por ali, um conjunto de lugares-comuns que importa comentar. O mais vulgar de todos é este: «André Ventura e o Chega querem responder com soluções simplistas a problemas complexos». Comecemos por descorticar esta banalidade. Desde logo, há que distinguir soluções simples de soluções simplistas. E ainda o que é difícil do que é simples. E, também ainda, o que é difícil do que é trabalhoso. Porque há soluções que sendo simples são difíceis, ou que sendo simples são trabalhosas

Primeiro exemplo: O Chega diz que o Estado é ineficiente e esbanjador e que há que cortar nos imensos desperdícios. Dizem em coro as pitonisas do regime: ‘Simplismo’. Mas não é simples de levar essa tarefa a cabo? É, basta ter o Excel do Ministério das Finanças onde constam todas (ou quase todas) as alíneas da despesa do Estado e distinguir as que são despesas virtuosas das muitas que o não são e cortar a direito por ali abaixo. É simples. Mas é fácil? Não, longe disso. Porque é muito difícil fazer frente a um mundo de interesses instalados ao longo de 50 anos. É simples, porque qualquer pessoa dotada de bom senso sabe distinguir o que é uma despesa útil de uma despesa inútil. Mas é difícil porque fazer frente àqueles interesses instalados exige duas qualidades hoje em dia raras: Uma determinação sem falhas e uma coragem inabalável. Um exemplo? Margaret Thatcher, que sem qualquer know how específico, mas com simples ‘contas de mercearia’ apoiadas numa substancial dose de bom senso e em muita coragem retirou o Reino Unido das margens do abismo em que estava prestes a mergulhar.

O Chega e André Ventura dizem que o Estado tem de ser o garante da segurança dos cidadãos e que ‘lugar de ladrão é na prisão’. Riem-se as pitonisas do regime do ‘confrangedor simplismo’ da fórmula. Mas com essa fórmula simples Nayib Bukele, Presidente de El Salvador transformou, em três anos, o país mais inseguro do mundo no país mais seguro. O segredo? De um ‘simplismo’ atroz: deu autoridade e poder à polícia e mandou construir uma mega prisão tecnicamente bem estudada que está longe de ser o hotel de 4 estrelas que são as nossas prisões. A solução é simples? É. Mas é fácil? Não, é difícil. Porque exige a hoje rara consciência de que o governante existe para defender o bem comum e não o seu conforto e o conforto de ladrões, violadores e assassinos. E exige a muita coragem necessária para fazer frente quer a inimigos poderosos quer a um dos grandes sub-mitos da nossa época: o deletério mito do falso ‘humanismo’, aquele que para poupar o carrasco multiplica as vítimas, este apenas um exemplo de quanto a nossa época é fértil na degenerescência de conceitos na sua origem nobres em conceitos falsos, tão diferentes estes dos da sua origem como é diferente um jarro de meio litro de vinho a martelo de uma boa garrafa de Chateau Petrus. Vivemos num tempo em que os verdadeiros sentimentos foram substituídos por um sentimentalismo de plástico. É o que é. Mas tem consequências. Graves.

A profunda decadência de Portugal acompanha a de todos os restantes países europeus. Mas esta decadência da Europa não se deve à falta de soluções técnicas para os problemas, todas elas consensuais. Deve-se, isso sim, à falta de coragem política para enfrentar mitos ideológicos, ambientes adversos, mas, sobretudo, interesses enraizados. Não, não vai ser fácil.

Vice-presidente da Assembleia da República