O Cavaleiro do Apocalipse

Mamdani conseguiu mobilizar uma campanha que muniu um conjunto de ideias catastróficas e bafientas, cujo lugar é na gaveta das más experiências históricas, de uma nova pátina.

Esta noite, deixámos o antigo para trás e entrámos no novo», declarou Zohran Mamdani no seu discurso de vitória. «Por isso», continuou, «falemos agora, com clareza e convicção que não possam ser mal interpretadas, sobre o que esta nova era trará e para quem». «Esta nova era será definida por uma competência e uma compaixão que há muito tempo têm sido colocadas em oposição uma à outra» e, no final de contas, há que provar que «não há problema grande demais para o governo resolver, nem preocupação pequena demais para ele se importar».

Com o estatuto de nova coqueluche da esquerda americana e internacional (pelo menos no Ocidente) já estabelecido, Mamdani parece representar a esperança de um rejuvenescimento intelectual e eleitoral de uma doutrina política em claro e constante declínio. O democrata aproveitou ao máximo o poder das redes sociais e levou a cabo uma campanha extremamente eficaz, principalmente junto dos mais jovens que votaram de forma expressiva no seu programa. Até Fareed Zakaria diz que a eleição de Mamdani é apenas mais um episódio de uma revolução global da Gen Z (nascidos entre 1997 e 2012), uma geração que, nas palavras do jornalista e comentador norte-americano, «exige autenticidade e ideias inovadoras aos seus líderes, comunicadas através da linguagem de internet». Que Mamdani tentou transparecer autenticidade e que comunicou as suas ideias através da linguagem de internet não há dúvidas. Mas o que devemos perguntar-nos, de forma parcial ou totalmente retórica, é se a agenda do Presidente Eleito de Nova Iorque é realmente inovadora e refrescante e se é provável que a maior cidade dos Estados Unidos se transforme numa luz «nesta escuridão política», para utilizar uma expressão do próprio.

Ora, não é necessária uma investigação profunda para chegar à resposta. E a resposta é clara: não. A única coisa que Mamdani traz de novo à política é forma, não substância. Controlo de rendas para combater a crise na habitação? Testado, com as consequências que sabemos: menos casas no mercado, aumento de preços e, no fim, escassez. Mercearias públicas? Revisite-se o semblante de estupefação de Boris Yeltsin ao ver pela primeira vez a abundância de um supermercado americano, ou as experiências semelhantes tentadas noutras cidades, e a resposta emergirá naturalmente. A limitação de espaço não me permite elencar todos os almoços grátis prometidos, mas já deu para entender a ideia.

Após uma breve pausa para recuperar o fôlego depois de revisitar este almanaque dogmático e ideológico que funciona como uma receita para o fracasso político e social, não posso deixar de citar Richard Brookhiser, historiador e jornalista norte-americano, quando escreveu em setembro na National Review, a propósito da agenda de Mamdani, que: «[a]mbição e ideologia mais ignorância e indiferença não são uma boa equação».

Por tudo isto, é lógico concluir que Zohran Mamdani não coloca, de facto, nada de novo em cima da mesa. Simplesmente conseguiu mobilizar uma campanha que se dedicou a munir um conjunto de ideias catastróficas e bafientas, cujo devido lugar é na gaveta das más experiências históricas, de uma nova pátina. E não sendo também isto um exercício novo no manual da esquerda, há que reconhecer o devido mérito. Conseguir vender com sucesso no mercado das ideias dogmas que sempre que saíram dos escritos dos intelectuais para a realidade cultivaram o engano, a violência, a fome e a escassez, e a morte (todas as características dos Cavaleiros do Apocalipse) não é tarefa fácil. Assim, para quem não o quer entender já, permanecendo ainda num estado de êxtase após consumir o programa inebriante de Mamdani, o tempo e a realidade encarregar-se-ão de demonstrar, mais uma vez, que estamos perante um Cavaleiro do Apocalipse – que acaba por corporizar as características dos quatro – e não de uma lufada de ar fresco neste ambiente político inegavelmente pesado.