Baião: do empobrecimento local à exaltação turística

São as mesmas iniciativas, as mesmas ideias, os mesmos actores e a mesma retórica do verde sustentável, da arte na eira, do assombramento nos antigos mosteiros, das mil e uma noites no rio, da celebração histórica, da noite mágica nos dolmens.

Ao longo destas últimas décadas os espaços locais foram invadidos e contaminados por uma retórica cultural e turística que serviu para disfarçar os problemas estruturais destes territórios, com a promoção da festa, da cultura e da arte servidas em pacotes organizados por especialistas de eventos culturais, que transportam para tudo o que é local a mesma e triste receita. São as mesmas iniciativas, as mesmas ideias, os mesmos actores e a mesma retórica do verde sustentável, da arte na eira, do assombramento nos antigos mosteiros, das mil e uma noites no rio, da celebração histórica, da noite mágica nos dolmens, etc.

Estas programações ditas culturais promovem um diversificado de conjunto de actividades, cujo objectivo é criar a ideia de que estes locais vivem numa espécie de hipertotalidade, cada local/vila ou concelho intervém simultaneamente em vários processos de totalização, como consequência deparamo-nos com a contradição local / global que passa para um plano dominante.

As políticas dominantes nestes concelhos afastam-se dos problemas reais e estruturais, interferem essencialmente nas estruturas do efémero e do lazer, com resultados extremamente negativos para a vida social, económica e ambiental das comunidades. Os poderes municipais descartam as suas responsabilidades como representantes de uma comunidade para um plano secundário e sem projecto político capaz de responder aos problemas do dia-a-dia.

Os políticos eleitos (Presidente de Câmara e Vereadores) ignoram os problemas reais e estruturais, dos quais depende a qualidade de vida e a segurança dos seus habitantes e residentes.  A saúde está cada vez mais distante e inacessível aos residentes destes concelhos como Baião; a rede de transportes intermunicipal e regional é fraca, deficiente e não responde às necessidades das pessoas, continuamos dependentes do táxi ou do vizinho ou familiar, a rede de saneamento e de água pública não se concluiu e mostra graves deficiências, a agricultura está envelhecida, desprotegida e asfixiada por regras e normas sanitárias e burocráticas imanadas da Europa, a educação é a única que vai funcionando com qualidade e normalidade.

No plano do ordenamento e planeamento territorial as coisas não estão melhores e não se acredita que possam ter bons anos. Depois de aplicarmos três gerações de Planos Directores Municipais (PDM`s) continuamos com uma estrutura urbana com baixa densidade, sem relação entre polos, sem malha qualificada, sem capacidade de fomentar uma política de solos com valor social e coesão territorial. O acesso à habitação é caro e quase inexistente, o solo urbanizável funciona como uma mercadoria ao serviço de rentistas e especuladores locais com a total conivência dos poderes municipais; consequência de décadas de incompetência política e negligência política na gestão e na organização do território local. Em Baião acresce o problema de termos 3 vilas e 3 hipotéticos centros urbanos (Campelo, Vila central do concelho), Ancede (antigo couto monástico de Santo André de Ancede) e Santa Marinha do Zêzere. Estas entidades administrativas são fruto da fantasia política e do eleitoralismo local, de promessas políticas, de pagamento de favores aos caciques locais. A consequência imediata levou ao enfraquecimento do centro da Vila em Campelo, a uma deslocalização e fragmentação de serviços municipais, a uma distribuição de investimentos e de equipamentos. Conduziu a uma perda de escala, de eficiência e de mobilização socioespacial.

Em Baião temos dois mandatos que podemos considerar fundantes e estruturantes da vida económica, social e cultural; são eles a presidência de Abel Ribeiro, um aristocrata da terra, um homem culto e aberto ao mundo, e a presidência de Emília Silva, uma mulher pragmática, simples, instruída, mas focada nos problemas de Baião e dos baionenses. Estes dois mandatos muito diferentes, mas com pontos de ligação comuns e ligantes, vão transformar o concelho e dotar a Vila de uma centralidade urbana com dimensão, qualificação e escala regional. Destaque para os equipamentos desportivos e culturais, as novas acessibilidades, os novos edifícios, com destaque para o edifício do Palácio da Justiça e arruamentos, a eletrificação pública e a rede de água e saneamento.

A renovação e transformação do Palácio de Chavães na Casa da juventude, o Auditório Municipal no antigo matadouro, as Piscinas cobertas e o pavilhão multiusos, etc. O mandato de Emília Silva foi sem dúvida fundante de vida urbana, de qualidade social e de abertura a novos estilos de vida em Baião.

Abel Ribeiro e Emília Silva foram os arquitetos da vida moderna em Baião. Durante os seus mandatos a vida económica, social e cultural ganhou nova força, nova alma, em Baião irradiava uma esperança de um tempo novo.

Infelizmente, essa luz de tempo novo desapareceu com os mandatos de José Luís Carneiro e Paulo Pereira. A Vila de Baião regressou aos tempos antigos, foi perdendo chama, foram-se destruindo equipamentos e deslocando outros. A normalidade era sonâmbula e alienante, intriguista e sem escala. A Câmara Municipal e seus serviços perderam eficiência, capacidade técnica, instalou-se o medo e a burocracia, a rotina e o eleitoralismo fizeram escola e dominaram em nome de um partido e de um líder, com a conivência dos mesmos interesses económicos locais e regionais.

O povo de Baião nestas últimas eleições para o Poder Local, decidiu interromper de forma clara e brutal os mandatos socialistas, em claro apoio a uma aventura política, que possa trazer de novo esse esperançar!.. Com o andar da carruagem, citando o sábio povo, não me parece que esta jovem mulher seja capaz de alavancar Baião.

Esta nova Presidenta não é o Abel Ribeiro nem a Emília Silva do século XXI. Seria falso da nossa parte afirmar que estavamos perante um mandato novo, pleno de luz e de esperança; pelo contrário, é o tempo velho que se renova sem o novo. É o novo que olha para o velho como lição do futuro. Facilmente nos apercebemos que vamos ter um mandato de consensos e de equilíbrios entre o passado socialista e o novo mandato que se irá traduzir na mesma vidinha.


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