Durante meses a fio, a popularidade do Almirante das vacinas manteve-se intocável, tendo-se vaticinado, quase unanimemente e com base em todas as sondagens, de que estaríamos perante o futuro Chefe de Estado.
Este cenário manteve-se enquanto Gouveia e Melo não deu a conhecer ao mundo o que era já do conhecimento geral, que seria candidato.
Bastou ter que começar a abrir a boca, para que as suas aspirações à mais alta magistratura do País entrassem numa espiral de desencanto junto do eleitorado, sendo, nesta altura, cada vez mais evidente de que não vai conseguir navegar até bom porto a sua candidatura, tornando-se Belém um destino que tende a visualizar-se como uma utopia.
O grande dilema que se coloca, agora, ao candidato que se afirma independente de todos os partidos, é o de ser obrigado a assumir-se politicamente, tarefa para a qual se tem revelado de uma incompetência atroz, considerando os ziguezagues em que se tem embrulhado.
Começou por se presumir rigorosamente ao centro, fazendo lembrar a condição a que foram forçados os políticos logo após a abrilada, proibidos de ocuparem qualquer espaço em que emergisse a palavra direita.
Nos tempos que correm, em que o combate político assume contornos de divisão e de agressividade cada vez mais acentuados, o centro deixou de existir, dando lugar ao confronto entre a direita e a esquerda.
O meio termo desapareceu, pelo que agora ou se está de um lado da barricada, ou se está do lado oposto.
Apercebendo-se desta nova realidade, e também chegando à conclusão que dificilmente poderá continuar a pescar os votos necessários que o possam catapultar para uma eventual segunda volta junto de quem tem o coração à direita, entendeu por bem mudar de estratégia e lembrou-se de se intitular como estando entre o socialismo democrático e a social-democracia, procurando, desse modo, piscar o olho a quem pensa mais à esquerda.
Certamente que algum dos seus assessores pacientemente o elucidou de que socialismo democrático e social-democracia são precisamente a mesma coisa, variando a terminologia apenas conforme os países onde os partidos que se advogam dessa ideologia se inserem, razão pela qual se viu obrigado a uma nova guinada, desta vez concluindo que é genuinamente um social-democrata, mas da social-democracia antiga, fez questão de frisar.
Estamos esclarecidos quanto ao pensamento político de quem teve como missão a de disseminar uma célebre vacina junto de um povo inteiro. É aquele que mais lhe convém para a prossecução das suas ambições.
Mas o naufrágio deste marinheiro, com pouca perícia para navegar nas águas em que ousou aventurar-se, expôs-se inevitável a partir do momento em que ele se viu na contingência de se sentar à mesa com um adversário e com ele esgrimir ideias.
A um vazio de pensamento, que já se sabia, revelou-se igualmente uma dificuldade natural de articular as opiniões que se exigem a um candidato presidencial, um pouco sobre toda uma variedade infinita de assuntos, mostrando-se vago, hesitante e confuso.
O derradeiro trambolhão, revelador da sua personalidade, ocorreu na parte final do seu primeiro debate, em que tinha como oponente Cotrim de Figueiredo; à última pergunta que lhe foi direccionada, a propósito da maior mentira que sobre si se criou durante a presente pré-campanha, respondeu, ipsis verbis: “que um ex-militar como eu seja considerado um perigo para a democracia”!
Um ex-militar, assim se considera aquele que foi até há escassos meses o Chefe do Estado-Maior da Armada!
Confesso que me tem causado alguma irritação quando ouço muitos dos jornaleiros da nossa praça a referirem-se a Gouveia e Melo como ex-almirante, facto elucidativo de uma imperdoável ignorância para quem tem a obrigação de se preparar devidamente antes de divulgar qualquer tipo de notícias.
O próprio novo presidente da Câmara Municipal do Porto, que desempenhou funções de ministro até há muito pouco tempo, se saiu com esse disparate, lapso que nos faz pensar que espécie de preparação é exigida a quem é mandatado para o exercício de funções com aquela responsabilidade.
Almirante é um posto vitalício e não uma ocupação temporária, mas a partir do momento em que o agora candidato presidencial se auto-denomina como ex-militar, obviamente que na sua percepção deixou de ser um oficial general.
Aqueles que tomei como ignorantes, afinal parece que não estavam enganados!
Para procurar captar os votos de quem se mostra reticente em depositar a sua confiança num militar, Gouveia e Melo acena-lhes com a sua nova condição, e a de um civil, como um outro qualquer, já sem nenhuma ligação ao meio castrense.
Pura hipocrisia.
Ao contrário de muita boa gente, que entende que a chefia do Estado deverá estar reservada exclusivamente a civis que ocuparam cargos de relevância política ao longo das suas vidas, nada me move contra a probabilidade de um militar alcançar aquele patamar, porque defendo que a mais alta magistratura da Nação deve ser entregue a quem prove reunir qualidades e competências necessárias para se tornar no primeiro representante dos portugueses, independentemente do seu passado profissional.
Os militares não podem ser desqualificados perante os restantes nacionais, devendo-lhes ser garantidos os mesmos direitos de cidadania que a todos os outros é proporcionado.
Mas Gouveia e Melo, ao invés de muitos dos seus pares da sua geração que apresentam uma bagagem intelectual e moral incomparavelmente superior à sua e que reunem todas as condições para lograr a presidência da república, tem provado ser um blefe e não estar à altura do cargo que pretende obter, característica esta que, infelizmente, se aplica também a quem se perfila como o seu principal adversário.
Resta-lhe a consolação de ontem mesmo ter sido agraciado com um apetecível presente de Natal, o apoio de José Sócrates.
Estamos conversados quanto à honorabilidade da sua candidatura!
Pedro Ochôa