Há pouco mais de um ano, as inundações em Paiporta, Valência, colocaram pressão sobre o Governo espanhol, liderado por Pedro Sánchez. No passado domingo, o PSOE voltou a ser abalado. Desta vez não por uma catástrofe natural, mas por um terramoto eleitoral.
Os eleitores da Estremadura acorreram às urnas e falaram de forma clara. O Partido Popular (PP) venceu com 43,18% dos votos um PSOE que não foi além dos 25,72%. Todavia, a vitória com larga vantagem de María Guardiola sobre o seu adversário direto, Miguel Ángel Gallardo, não foi suficiente para chegar a uma posição de Governo independente de acordos. O voto de quase 230 mil eleitores no PP traduzem-se em 29 assentos na Assembleia da Estremadura, quando são necessários 33 para a maioria absoluta, o que forçará Guardiola a entendimentos com o Vox. O partido de Santiago Abascal foi o que mais cresceu em relação às eleições de 2023, passando de 49.400 votos para mais de 89 mil (de cinco para 11 assentos).
Os equilíbrios e acordos para governar serão a chave do futuro da região. É importante relembrar que foi o bloqueio do Vox a um orçamento do PP que levou Guardiola a convocar eleições antecipadas. E os últimos resultados, independentemente da grande vitória e da receção apoteótica em Génova da candidata do PP na Estremadura, não são, de todo, facilitadores para os populares. Por isto, o líder do partido de centro-direita, Alberto Núñez Feijóo, já deixou um aviso a Abascal: «As pessoas disseram basta a mais política que não serve para nada. Querem um governo e querem o PP a liderar o Governo da Estremadura». «Espero que o Vox compreenda o que a maioria dos espanhóis nos diz. Que nunca mais se enganem quanto ao adversário. O adversário não é o PP. É um governo que degradou a política», disse o líder popular.
Um ‘batacazo’
As declarações de Feijóo levam-nos ao destaque da noite eleitoral: o PSOE. O partido que atualmente lidera o Governo nacional sob a égide de Pedro Sánchez, e que governou a Estremadura em 36 dos últimos 42 anos, sofreu uma derrota. E uma derrota pesada. Os socialistas perderam mais de 100 mil eleitores e 10 assentos no parlamento regional, onde se encontravam em paridade com o PP desde as eleições de 2023. Na análise do líder do PP, o PSOE acabou por ser devorado pelo monstro que criou: «A melhoria do resultado do Vox não é à custa do PP. Duas conclusões. Há um fracasso na narrativa do PSOE. Ao alimentar tanto o medo do Vox, conseguiram que o Vox crescesse e que o PP crescesse». «Grande sucesso socialista», rematou.
Mas a retórica do Governo, que está evidentemente fragilizado, parece continuar na mesma linha. Pouco depois do desaire eleitoral na Estremadura, Elma Saiz, porta-voz do Executivo, disse que «Guardiola, o Partido Popular, decidiu convocar estas eleições porque queria livrar-se do Vox, mas o que conseguiu foi ficar mais preso que nunca». Da cúpula socialista catalã veio uma mensagem idêntica. «Temos uma presidente, María Guardiola, que convocou [eleições] para obter maioria absoluta e não depender do Vox, e o que conseguiu foi o contrário. Guardiola e Feijóo conseguiram tornar-se mais reféns e depender ainda mais da extrema-direita», disse Lluïsa Moret, vice-primeira secretária e porta-voz do Partido Socialista da Catalunha.
Por sua vez, Sánchez, de acordo com o El País, disse à porta fechada que «os eleitores voltarão nas eleições gerais». Estas declarações levaram José Marcos, a escrever no mesmo jornal, à conclusão de que o «presidente mantém a estratégia de identificação de Feijóo e Abascal, enquanto outros líderes socialistas acreditam que o medo do Vox ‘já não funciona’». Também o El Mundo aponta para a falta de autorreflexão de Pedro Sánchez: «Sánchez não faz autocrítica pela derrota na Estremadura nem perante a Executiva do PSOE: culpa o PP e o Vox de ‘desumanizar’ o seu candidato», escreveram Marta Belver e Raúl Piña no diário espanhol.
Demissão e futuro
Independentemente de algumas leituras que possam ser feitas, e da tentativa de distanciamento do Governo que coloca a culpa no PP, um descalabro eleitoral destas dimensões faz sempre ‘rolar cabeças’. A primeira, e a mais evidente, foi a do secretário-geral do PSOE na Estremadura, Miguel Ángel Gallardo. «O resultado do PSOE é muito mau, sem paliativos», disse Gallardo que assumiu os resultados «pessoalmente». A demissão era inevitável.
Nas primeiras declarações após a vitória, Guardiola disse que estes resultados demonstram uma rejeição ao Governo e ao PSOE, que nos últimos tempos se têm visto envolvidos numa teia de escândalos que parece interminável: «Os habitantes da Estremadura rejeitaram os bulos, a corrupção e o bloqueio». A líder do Governo estremenho disse ainda que a «sensatez prevaleceu e o PP é o primeiro partido da região. Os estremenhos decidiram quem querem que continue a liderar este projeto de mudança e conquistámos mais onze lugares do que o PSOE. Conseguimos mais 17 pontos do que a segunda força política». Guardiola deixou também a garantia de que, a partir da última segunda-feira, iria «iniciar uma ronda de diálogos para que a Estremadura tenha, o mais rapidamente possível, um Governo forte e estável»