A quadra natalícia é sempre objeto, ou veículo, de várias reflexões. Sejam elas religiosas, sociais, políticas, ou económicas, o aniversário de Jesus – para crentes e não crentes – tem um dom natural, porque culturalmente enraizado, para as suscitar. Uma época de solidariedade, amor – e, deve dizer-se, de elevado consumismo –, que, em condições ideais, junta tantas gerações e famílias cujo contacto pode não ser tão frequente quanto desejariam durante o resto do ano. De forma curta, é do melhor que a civilização ocidental, com o selo indelével do cristianismo, tem para oferecer; uma tradição que merece respeito e um lugar de destaque na nossa cultura.
O parágrafo anterior pode parecer do mais elementar senso comum, porque é. Ou já foi. Até há pouco tempo, quando o complexo de culpa ocidental começou a ganhar terreno à boleia de uma blitzkrieg secularista e relativista que tentou, com algum sucesso, derrubar as fileiras de uma herança comum, reduzindo-a à insignificância histórica; uma mancha que deveria ser apagada a todo o custo. No processo, assistimos a uma constante perversão dos conceitos. Tradição passou a ser sinónimo de um passado obscuro, bafiento e supersticioso que deveria ser descartado pelas mentes arejadas, cuja fé na razão e crença na verdade absoluta de que não existem verdades absolutas seriam os únicos combustíveis capazes de fazer avançar o comboio da História rumo ao progresso.
Chegados aqui, importa notar que ninguém dotado de um mínimo de bom senso poderá rejeitar o progresso. Afinal, a História vai sendo moldada precisamente porque a noção de progresso é uma característica intrínseca ao Homem, um ideal a ser perseguido. O objetivo é deixar um mundo melhor para quem vem depois de nós, e o progresso é a única solução. Mas a palavra progresso parece hoje indistinguível de um ideário que se autoproclama progressista, responsável por dar forma e substância, entre outras coisas (como, por exemplo, o agigantamento do Estado em detrimento da liberdade individual), ao já mencionado complexo de culpa.
C. S. Lewis abordou de forma curta, mas brilhante, a ideia de progresso na sua obra clássica Mere Christianity, um livro que acopla uma série de conversas transmitidas pela BBC durante a Segunda Guerra Mundial. «Progresso significa não apenas mudar», explicava o autor britânico, «mas mudar para melhor». «Se nenhum conjunto de ideias morais fosse mais verdadeiro ou melhor que outro, não faria sentido preferir a moralidade civilizada à moralidade selvagem, ou a moralidade cristã à moralidade nazi. Na verdade, é claro, todos acreditamos que algumas moralidades são melhores que outras», dizia. Mais, argumentava de forma irrepreensível, «[n]ão há nada de progressista em ser teimoso e recusar-se a admitir um erro. E penso que, se olharmos para o estado atual do mundo, fica bastante claro que a humanidade tem cometido um grande erro». «Estamos no caminho errado», concluía, «e, se assim é, temos de voltar atrás». Isto porque voltar atrás «é o caminho mais rápido para seguir em frente».
Se considerarmos este pensamento como auto evidente – não sendo por isso necessário explicar o porquê de o progressismo atual, no qual várias fontes de poder político e intelectual ocidentais teimam em insistir, ser um caminho errado –, o exercício de pensar o futuro do Ocidente torna-se mais fácil.
E, de facto, a população parece estar a entender a dinâmica da qual Lewis falava, mesmo que possa parecer contraintuitiva quando olhada através de lentes simplificadoras da realidade. «Numa época de esgotamento ideológico e de fragmentação social», escreveu há uns dias Christiaan Alting Von Geusau na Geopolitical Intelligence Services, «um número crescente de europeus está a redescobrir o cristianismo como fonte de dignidade e propósito». De acordo com este artigo (Christianity and the future of Europe), os batismos e a afluência às igrejas estão a aumentar por toda a Europa, com este crescimento a ser maioritariamente alavancado pelas gerações mais jovens. Gerações que, de forma articulada ou meramente instintiva, entendem que para progredir é necessária uma reconciliação com as raízes. Com isto não se pretende dizer que a única solução para reerguer o Ocidente passa pela crença total na doutrina cristã, mas começar a reconhecer a sua importância na tradição da liberdade é um passo fundamental. A todos, um Feliz Natal.