Os treinadores contam muito

Hoje, temos mais confusão do que obra, mais falhas do que sucessos, mais conversa do que ação, mais polémica do que resolução, mais corrupção do que Justiça, mais degradação nos serviços públicos e mais políticos inabilitados

Nota prévia: Com quatro candidatos separados por 5% nas intenções de voto (a distância vai sensivelmente de 20 a 15%) e de haver 20% indecisos, é óbvio que a primeira volta das presidenciais é uma grande incógnita. Tudo influencia. Confusões nos boletins de voto e na organização da votação e apuramento no estrangeiro, detalhes de apresentação, incidentes, dislates de linguagem, rasteiras mediáticas, casos judiciais ou patrimoniais, além dos apoios que forem surgindo, ou não. Ainda assim, é provável que conte sobretudo a postura de cada um e a forma como lidar com as pessoas sob o permanente escrutínio das televisões e do comentariado. Sem esquecer as próprias condições climatéricas do dia 18, que podem mobilizar ou afastar segmentos de eleitores. E logo na véspera do ‘Blue Monday’, o dia mais depressivo do ano.

1. Para sermos um país à Ronaldo, convinha, desde logo, evitar certos desleixos que infernizam a nossa vida, afetando a economia e a imagem externa. Exemplos não faltam. Bastam dois. A catástrofe em que se transformou a passagem da fronteira nos aeroportos de Lisboa e Faro, especialmente para gente de fora da União Europeia e mesmo para os de Schengen. Quatro horas de espera são corriqueiras, com casos a passarem de seis. Mais recentemente deu-se o empancamento e acumulação de contentores no porto de Leixões (outros portos devem seguir-se), com graves consequências nas importações numa época essencial. Por tabela, a Madeira foi afetada. No essencial, as causas das duas insólitas ocorrências são as mesmas: a incapacidade de pormos em funcionamento sistemas informáticos adotados pela União Europeia. Connosco é muito assim. O que temos a funcionar sem grandes problemas vem amiúde do Estado Novo ou do cavaquismo. Hoje, temos mais confusão do que obra, mais falhas do que sucessos, mais conversa do que ação, mais polémica do que resolução, mais corrupção do que Justiça, mais degradação nos serviços públicos e mais políticos inabilitados. Ter democracia não chega. Até porque ela está por cumprir em muitos campos. Note-se que o Presidente Marcelo se viu obrigado a convocar um Conselho de Estado para discutir a situação na Ucrânia. Não porque sejamos fundamentais nesse contexto, mas porque se trata de órgão constitucional do sistema, que é imperativo ouvir cujos lugares não estão todos preenchidos por incapacidade de entendimento entre políticos. Absurdamente, Pinto Balsemão e Pedro Nuno Santos ainda não foram substituídos(?!). É possível que haja quem falte ao conselho. Talvez até diga que é por protesto, mas provavelmente é preguiça ou tática barata. Não foi com desleixos desses que Ronaldo atingiu os píncaros. Foi por mérito e sacrifício. E também porque foi dos que emigrou. É, aliás, neles que mais sucessos encontramos. Em regra, os que permaneceram são conformistas e acomodados. As exceções são raras. Há que reconhecer que, além da família matriarcal que o deixou voar, Ronaldo não se ficou pelo talento natural. Soube aproveitar e seguir ensinamentos de treinadores de diversos patamares, especialmente os do carismático Ferguson. Além disso, percebeu que não podia ficar-se pelo mundo da bola. Construiu um negócio planetário chamado CR7, contratando e aprendendo com gente altamente profissional. É, portanto, aceitável que Luís Montenegro tenha citado o jogador no seu discurso motivacional natalício. Mas – reconheça-se – que se tratou de um facilitismo. Até porque, no geral, temos mais a ver com jogadores das distritais do que com os ases da Premier League. Questão de ADN, provavelmente…

2. O Papa Leão convocou para os dias 7 e 8 de janeiro, no Vaticano, o primeiro consistório extraordinário do seu pontificado. Pode ser nesse consistório que o Patriarca de Lisboa seja elevado à condição cardinalícia, cumprindo uma tradição centenária. Todavia, a decisão é prerrogativa pessoal do Papa e não é obrigatória. No caso de Lisboa, também pode suceder que essa dignidade só seja atribuída quando o antecessor do Patriarca, desde que seja cardeal, perder a qualidade de eleitor papal em conclave. Ora, Dom Manuel Clemente mantém a prerrogativa até 2028, quando fizer 80 anos. De notar que o Papa Francisco teve a oportunidade de proceder à indicação de Dom Rui Valério no seu último consistório, mas não o fez. Esperemos que não volte a suceder, uma vez que para os lisboetas, sejam ou não católicos, não é indiferente que o seu bispo seja cardeal. Tanto mais que Dom Rui tem-se revelado muito próximo dos mais desfavorecidos, independentemente das suas convicções religiosas ou políticas.