Vida

A execução de um camarada - Parte I

Nasceu em Vale de Vargo, concelho de Serpa, casou cedo com Francisca de São Pedro Cerejo, mulher da sua fibra, que o acompanhará partilhando a mesma exacerbação na luta contra o salazarismo. Quatro filhos chegaram de enfiada e com eles a noção de que tinha de romper com a engrenagem da miséria para lhes dar melhor futuro.

Andou de jorna em jorna. Meses longe dos seus, a dormir ao restolho, enrolado numa serapilheira. Quando não havia emprego, juntava-se a outros camponeses que no adro da igreja esperavam os feitores que chegavam para escolher mão-de-obra barata.

Não se deixava espezinhar e conseguia levar outros camponeses a regatearem os preços impostos pelos latifundiários. O PCP, única força da oposição organizada contra a ditadura, descobriu nele vocação para agitar as massas. José Miguel narrará mais tarde o recrutamento: «Fui aliciado em 1948 pelo meu compadre José Maria, trabalhador rural que prestou serviço nos Açores como expedicionário».

O camponês aderia à organização clandestina numa época nada auspiciosa. Salazar eternizava-se no poder, a PIDE estendia a sua malha e uma sucessão de prisões flagelava o partido. A muralha humana que até aí se tinha mantido intacta ia sendo cercada. No ano seguinte, o próprio Cunhal seria preso numa casa clandestina no Luso. Uma série de traições abria brechas profundas na organização.

Um ano depois de ter entrado no partido, José Miguel já era o responsável do comité local de Vale de Vargos. O seu controleiro era Manuel Lopes Vital, que entrara pela mão do escritor (e membro do Comité Central) Soeiro Pereira Gomes, que a tuberculose acabara de levar. Mas Vital, responsável pelo Alto e Baixo Alentejo, há oito anos na clandestinidade, estava em rota de colisão com o PCP. As versões sobre o seu comportamento variam. Uns dizem que entrara em ruptura ideológica, outros que, por dificuldades económicas, desviara fundos. E, ao ser apanhado e expulso, escrevera uma carta ao CC em que ameaçava entregar nomes e tudo o que sabia da organização se não o salvassem da ruína.

Em Outubro de 1950, Vital aparecia morto numa charneca em Alcochete. Para a PJ e a PIDE, não restaram dúvidas de que ali havia o dedo do PCP. No espaço de um ano, três funcionários do partido - além de Vital, Manuel Domingos, elemento do CC que se viria a provar que nunca traíra, e uma mulher, Aurélia Celorico - eram assassinados com o mesmo modus operandis. Num relatório, em 1961, o chefe Martinez da PJ relacionava os crimes: «Foi assassinado pelas costas, na comarca do Montijo, o Manuel Lopes Vital. Era funcionário do PCP. Houve outro [assassínio] nos arredores do Porto em S. Genil em Junho de 1950, cujo processo ainda corre naquela cidade, de que foi vítima uma mulher que, com o seu marido, pertencia também ao PCP. Foi assassinada com dois tiros».

felicia.cabrita@sol.pt