Cultura

O rock estará sempre salvo com Jack white

'Lazaretto', a canção que dá nome ao novo álbum de Jack White, resume tudo aquilo de bom que o registo contém: riffs de guitarra irrequietos, mudanças de ritmos e de tempos dentro do mesmo tema e a voz endiabrada do músico norte-americano. Título inspirado nas instituições de quarentena onde os viajantes chegados do mar eram obrigados a estar, Lazaretto, segundo disco a solo do fundador dos White Stripes, consolida o estatuto de Jack White como o músico que melhor compreende as heranças musicais americanas (como o folk, o blues e o country) e as transporta para o presente com um embrulho roqueiro.

Desde 2003, quando saiu Elephant - o disco mais celebrado dos White Stripes, eleito pelos críticos como um dos responsáveis por ressuscitar o rock adormecido desde os anos 80 -, que Jack White defende que a sua música é mais próxima do blues do que do rock. “Para mim a música dos White Stripes sempre foi blues moderno”, disse há dois anos à Uncut. Mas a percepção que a maioria tem de si é a de ser, antes, um perito exímio em mesclar estes estilos e transformá-los em algo vibrante usando exactamente os mesmos 'truques' orgânicos das décadas de 1960 e 70. Não é por acaso que, no ano passado, Neil Young tenha recorrido aos estúdios da Third Man Records (a editora criada por White, com sede em Nashville) para regravar o disco de versões que lançou este ano, A Letter Home. 

Foi esta paixão pela tradição musical norte-americana que White quis reforçar em Lazaretto e, para isso, resolveu experimentar novos métodos de composição. Habituado a escrever os seus discos em períodos muito curtos de tempo - Elephant, por exemplo, ficou pronto em três dias -, o novo álbum demorou ano e meio a ser concluído. “Numa banda estás sempre em movimento e a pensar no próximo passo. A solo, não sinto essa pressão de estar constantemente a pensar no que vou fazer a seguir”, disse à Uncut deste mês. Assim, reforçou ao Guardian, escreveu primeiro a parte sonora das canções e, meses depois, encaixou as letras. E esse foi o processo mais demorado. Mas “foi uma má ideia fazer isso”, confessou White ao jornal britânico. 

Desinspirado, retomou a escrita depois de encontrar blocos de notas antigos, com pequenas histórias que escreveu aos 19 anos. “A qualidade era muito duvidosa, mas quando estava prestes a deitar tudo fora pensei: 'E se aproveitasse algumas frases e fizesse novas letras com elas?' Foi como se estivesse a colaborar com o meu eu mais jovem”, contou à Uncut. O resultado é, mais uma vez, um disco extraordinário, atormentado pelo turbilhão interior que parece consumir constantemente Jack White, mas que transformado em canções rock ganha uma grandeza inquestionável. 

alexandra.ho@sol.pt