Cultura

A cidade de Vhils

Tinha pouco mais de dez anos quando escreveu pela primeira vez numa parede pública. Pouco depois, pelos 14, começou a escapulir-se durante a noite para deixar a sua marca em carruagens de comboios, como qualquer writer em início de carreira. Fez do graffiti a sua forma inicial de expressão e da cidade a sua tela. 

A exposicao Disseccao/Dissection, aberta ao publico desde dia 5, no Museu da Electricidade Jose Sergio/SOL
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Alexandre Farto, mais conhecido por Vhils Jose Sergio/SOL
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O SOL acompanhou a recta final da operacao de montagem Jose Sergio/SOL

Esses tempos até podem estar distantes para Alexandre Farto, mais conhecido como Vhils, mas é precisamente à cidade que o artista regressa e presta homenagem na exposição Dissecção/ Dissection, aberto ao público desde o dia 5 de Julho, no Museu da Electricidade. A ideia nasceu há mais de um ano quando Vhils foi desafiado para expor pela primeira vez, e individualmente, num museu português. Amplamente elogiado pela crítica internacional, nos últimos anos o mais famoso street artist português tem apresentado o seu trabalho um pouco por todo o mundo. Faltava Portugal. 

Vhils não gosta de ver esta exposição como uma retrospectiva, até porque acredita que, aos 27 anos, não tem idade para tal. Encara-a mais como uma mostra das várias vertentes do seu trabalho, sobretudo dos últimos três ou quatro anos. “Até agora não tinha havido oportunidade de ter uma exposição com esta escala e que me permitisse fazer uma reflexão”.

É sobre a cidade e os seus habitantes que Vhils aqui reflecte. “A ideia foi dissecar o espaço urbano e olhar para aquilo que vemos todos os dias de uma maneira diferente”. Procurando respeitar a estrutura do Museu, montou nele um percurso que parte do “caos e da saturação visual” rumo à neutralidade. Por uma espécie de labirinto vão-se descobrindo as obras - na maioria inéditas - de Vhils e, assim, a sua cidade, acabando por desembocar no local onde o próprio artista começou: uma carruagem de comboio.

Este foi um dos maiores desafios da montagem, ou não pesasse a composição cerca de três toneladas, o que obrigou a um enorme estudo de engenharia: primeiro era necessário assegurar que a estrutura do Museu sustentaria o peso, depois foi preciso encontrar uma metalúrgica que 'cortasse às fatias' esta carruagem. Agora, quando se vê ali, imponente, suspensa no ar, imaculadamente branca, nada disto parece ter importância.

raquel.carrilho@sol.pt